Em um cenário onde os filmes de super-heróis eram dominados por narrativas mais tradicionais, como Homem-Aranha (2002) e X-Men (2000) no início dos anos 2000, Hollywood começou a flertar com histórias mais sombrias e complexas. Títulos como Blade II: O Caçador de Vampiros (2002), Demolidor: O Homem sem Medo (2003) e Batman Begins (2005) pavimentaram o caminho para uma nova era, onde nem tudo era preto e branco. Foi nesse contexto que, em 2009, o diretor Zack Snyder (conhecido por 300 e Madrugada dos Mortos) lançou sua ambiciosa adaptação de Watchmen, a aclamada história em quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons do final dos anos 1980.
Agora, com o retorno do filme à Netflix em junho de 2026, a discussão sobre sua natureza divisiva ressurge. Por que, mais de uma década após seu lançamento, Watchmen ainda provoca reações tão extremas entre o público e a crítica? A resposta reside em uma combinação de fatores: a visão ousada do material original, as escolhas de adaptação e o estilo inconfundível do diretor, que desafiaram as expectativas e tocaram em nervos sensíveis tanto de fãs puristas quanto de novos espectadores.
A visão sombria que chocou o público
Watchmen, tanto nos quadrinhos quanto no filme, apresenta um universo onde os superpoderes coexistem com a falha humana em sua forma mais crua. Longe dos ideais heroicos da DC e Marvel, a obra de Moore mergulha em uma sociedade quebrada, onde vigilantes são tão problemáticos quanto os vilões que combatem. O filme de Snyder não se esquiva de mostrar a depravação, o abuso, o preconceito e a falta de moral que permeiam esses “protetores”, tornando-o um precursor temático para produções como The Boys (2019).
Para um público acostumado com a virtude de um Superman ou a ética de um Batman (mesmo em suas versões mais sombrias), a representação de heróis descontrolados, que cometem atos hediondos sob o disfarce de suas identidades secretas, foi um choque. A classificação indicativa para maiores de 18 anos tentou filtrar o acesso, mas a onipresença da obra, seja nos cinemas ou no mercado de DVDs, garantiu que pessoas de todas as idades fossem expostas a uma visão perturbadora de um mundo com super-humanos. Essa abordagem brutalmente realista, embora fiel ao espírito do material-fonte, foi o primeiro ponto de discórdia.
As polêmicas mudanças no final da história
Um dos maiores motivos de descontentamento para os fãs da graphic novel foi a alteração do “grand finale” de Ozymandias. Nos quadrinhos, o homem mais inteligente do mundo orquestra um plano complexo para unir a humanidade contra uma ameaça comum: um molusco alienígena gigantesco que ele próprio criou e invocou em Nova York, incriminando o Doutor Manhattan. O objetivo era a paz mundial, mesmo ao custo de milhões de vidas inocentes.
Zack Snyder, para manter um tom mais “realista” e sombrio em sua adaptação, substituiu o molusco alienígena por uma série de bombas atômicas que seriam atribuídas ao Doutor Manhattan. Embora a essência do plano – unir a humanidade através de um inimigo comum – tenha sido mantida, a mudança do elemento fantástico para algo mais “crível” foi vista por muitos puristas como um “crime inafiançável”. Essa decisão gerou uma fenda profunda entre os que apreciaram a nova abordagem e os que esperavam ver a criatura bizarra ganhar vida na tela grande.
A “glamourização” de Rorschach
Outro ponto de intensa controvérsia foi a representação de Rorschach. Na obra original de Alan Moore, Rorschach é concebido como um extremista repulsivo, cuja bússola moral é completamente quebrada. Ele encarna a figura de um vigilante fascista, autoritário, que não enxerga a linha tênue que o separa dos vilões, justificando qualquer violência em nome da “purificação” da sociedade. A intenção de Moore era que o personagem fosse visto com desconforto e até aversão.
No filme, no entanto, a interpretação de Rorschach, embora violenta, foi percebida por muitos como a de um anti-herói trágico, quase um Batman mais brutal. Essa “glamourização” involuntária fez com que o personagem conquistasse uma legião de fãs, muitos dos quais não tinham contato com a HQ. Para os leitores originais, essa transformação desvirtuou completamente a mensagem do autor, transformando um ícone do extremismo em uma figura admirável, o que gerou profunda frustração e discussões intermináveis sobre a fidelidade da adaptação.
O estilo inconfundível de Zack Snyder e a fúria de Alan Moore
Zack Snyder é conhecido por sua assinatura visual: cenas em câmera lenta, paleta de cores saturadas e uma estética estilizada que se tornou sua marca registrada em filmes como 300 e Liga da Justiça. Em Watchmen, essa “fórmula Snyder” foi aplicada à exaustão. Enquanto alguns fãs apreciaram a recriação visualmente perfeita de muitos quadros da HQ, outros criticaram que o estilo tirava o peso dramático da narrativa, priorizando efeitos visuais caros em detrimento da profundidade emocional.
Para Alan Moore, o autor de Watchmen, a questão é ainda mais profunda. Moore é notoriamente avesso a qualquer adaptação de suas obras, chegando a manifestar publicamente seu “ódio” por elas, especialmente por Watchmen. Ele considerava sua HQ “infilmável” e criticou a versão de Snyder por, segundo ele, ter excluído a desconstrução crítica e os dilemas morais para transformar os “heróis” em figuras “descoladas e legais”, tornando-os “mais do mesmo” em um gênero que ele tentou subverter. Sua recusa em se envolver até mesmo com a elogiada série da HBO (2019), que funciona como uma sequência dos quadrinhos, é um testemunho de sua aversão.
Watchmen vale a pena ser assistido?
Apesar de todas as controvérsias, o retorno de Watchmen à Netflix em 2026 oferece uma nova oportunidade para apreciar (ou debater) o filme. Como um projeto cinematográfico “isolado”, a obra de Zack Snyder funciona como um thriller de super-heróis sombrio e cheio de debates morais. Para quem não conhece a graphic novel original, a experiência pode ser instigante e até mesmo um convite para explorar o material-fonte.
No entanto, para os fãs puristas da HQ de Alan Moore, a recomendação é cautelosa. As diferenças cruciais na trama e na representação de personagens podem gerar mais frustração do que satisfação. Nesses casos, a série da HBO, que é uma sequência direta dos quadrinhos, ou a expansão da DC Comics como O Relógio do Juízo Final e outras prequels, podem ser alternativas mais gratificantes. Independentemente da escolha, é crucial lembrar que, mesmo com as mudanças, o filme de Watchmen continua sendo uma obra densa e madura, não recomendada para crianças e adolescentes, e que certamente continuará a gerar discussões por muitos anos.
Fonte: canaltech.com.br
