A gigante tecnológica Meta está no centro de uma nova controvérsia, enfrentando um processo judicial que a acusa de utilizar sistemas de inteligência artificial (IA) para identificar, pontuar e, por fim, demitir funcionários que estavam afastados por licença médica, licença-maternidade ou que possuem deficiência. A ação, movida por 26 trabalhadores anônimos, alega que a empresa de Mark Zuckerberg violou leis federais e estaduais contra discriminação e retaliação, além de legislações recentes da Califórnia e de Nova York que exigem testes de viés em sistemas automatizados de decisão.
Como a IA teria atuado nas demissões
De acordo com o processo de 71 páginas, a Meta não teria se baseado no julgamento de gestores que conheciam o desempenho individual dos empregados. Em vez disso, um conjunto de sistemas internos de IA foi responsável por pontuar, ranquear e selecionar os trabalhadores incluídos na lista de desligamentos. Os advogados dos autores argumentam que esses processos automatizados coletam dados de desempenho e produtividade que são inexistentes ou significativamente menores quando um funcionário está afastado por licença médica ou familiar. Para pessoas com deficiência, essas métricas tendem a ser naturalmente inferiores, o que, segundo a ação, penalizou injustamente trabalhadores por exercerem um direito legal.
Entre as ferramentas de IA mencionadas no processo estão o “Metamate”, um assistente de linguagem interno, e um sistema apelidado de “segundo cérebro”, treinado com comunicações e documentos dos próprios funcionários. A acusação também cita uma pontuação de produtividade calculada a partir de dados como teclas digitadas, conteúdo de tela, e-mails e histórico de navegação. Esses dados alimentavam um programa de monitoramento lançado pela Meta no início do ano, que capturava atividades do mouse, mensagens e localização em dispositivos corporativos. O CEO Mark Zuckerberg teria afirmado em uma reunião interna que o objetivo era treinar os sistemas de IA da empresa a partir do comportamento de funcionários de alta performance.
Casos chocantes e a resposta da Meta
O processo detalha situações individuais para sustentar as alegações de viés. Um dos exemplos é o de uma cientista que, em licença-maternidade aprovada, foi notificada de sua demissão apenas dois dias antes de dar à luz. Outro caso envolve um engenheiro que afirma ter recebido uma avaliação rebaixada devido a um período de afastamento para tratar uma lesão. Há também o relato de um gerente que foi desligado apenas 16 dias após o início de sua licença médica.
Em resposta às acusações, um porta-voz da Meta classificou-as como infundadas. A empresa defende que as decisões sobre gestão de funcionários e organização interna são tomadas por pessoas, e não por inteligência artificial. A Meta já havia anunciado uma reestruturação que envolveria o remanejamento de cerca de 7 mil funcionários para áreas ligadas à inteligência artificial antes dos cortes.
Controvérsia interna e próximos passos
A ferramenta de monitoramento que alimentava os sistemas de IA já havia gerado protestos internos meses antes. Mais de 1.600 funcionários assinaram uma petição alegando violação de privacidade, o que levou Zuckerberg a anunciar a suspensão da iniciativa em junho. Os autores da ação permanecerão como funcionários da Meta até 22 de julho, data prevista para o início dos desligamentos.
Os advogados dos funcionários pedem ao tribunal uma decisão liminar para suspender a finalização das demissões enquanto o caso avança em arbitragem privada. Além disso, solicitam uma auditoria independente sobre os sistemas de IA utilizados no processo de seleção. A controvérsia surge em um momento em que a Meta planeja investimentos massivos em IA, com projeções de US$ 115 bilhões a US$ 135 bilhões no setor até 2026.
Fonte: canaltech.com.br
