A polêmica em torno de “A Odisseia” de Christopher Nolan ganha força com a confirmação de Lupita Nyong’o no papel de Helena de Troia e Clitemnestra. A escolha da atriz, que difere da representação tradicional da personagem como uma mulher branca de cabelos claros, tem gerado intensos debates na internet, com muitos criticando a decisão como uma tentativa de “sinalização de virtude” por parte do diretor.
O novo filme de Christopher Nolan, baseado no épico poema de Homero, tem estreia prevista para 16 de julho e já enfrenta forte oposição online. Trailers da produção acumulam um número expressivo de dislikes, indicando a insatisfação do público com as liberdades criativas tomadas por Nolan em relação ao material original.
Defesa “Woke” e a Falsa Equivalência Histórica
Enquanto críticos apontam a alteração étnica como uma clara demonstração de “cultura woke” e uma estratégia para obter reconhecimento no Oscar, defensores de Nolan buscam validar a escalação de Nyong’o recorrendo a interpretações da história e cultura gregas. Argumentos como a suposta admiração grega por pessoas negras, a ideia de que deuses gregos seriam negros e que a própria Grécia antiga teria uma população predominantemente negra são frequentemente utilizados.
No entanto, o professor Thiago Braga, criador dos canais “Brasão de Armas” e “Impérios AD”, contesta veementemente essas alegações. Através de análise de fontes primárias gregas, iconografia e estudos especializados, Braga sustenta que tais argumentos são falsificações históricas. “Era melhor os sinalizadores de virtude terem ficado só no ‘argumentinho’ de que o filme é do Nolan e ele faz o que ele quiser”, afirma o professor, ressaltando que, embora o diretor tenha liberdade criativa, a busca por coerência cultural e histórica é fundamental.
“A Odisseia” é Ficção, Mas Não Uma Ficção Qualquer
Uma matéria da revista Veja, intitulada “A polêmica vazia (e racista) sobre Lupita Nyong’o ser a nova Helena de Troia”, sugere que “A Odisseia” é uma ficção e, portanto, aberta a reinterpretações. Braga critica essa visão, argumentando que, embora seja uma obra de ficção para o público contemporâneo, para os gregos antigos, ela representava sua história e seu povo. “Quando Homero escreveu a Odisseia, ele não escreveu pensando nos moderninhos do século XXI; ele escreveu pensando no povo e na cultura da época dele”, explica.
O professor enfatiza que os mais de 12 mil versos da Odisseia eram memorizados e ensinados nas escolas gregas, e que artistas da época retratavam seus heróis de acordo com a sua própria realidade étnica e fenotípica. Portanto, alterar a etnia de personagens como Helena de Troia, descrita como “Helena de braços brancos”, é visto por Braga como um desrespeito à criação original e uma falsificação cultural. Ele compara a situação a uma hipotética escalação de uma atriz branca para interpretar uma figura central da mitologia africana, como Mami Wata, levantando a questão da aplicabilidade da “ficção” como justificativa para tais alterações.
Respeito à Origem Cultural e a Integridade da Obra
Braga questiona a lógica por trás da escolha de Nolan por uma obra tão reverenciada como “A Odisseia” se a intenção fosse alterá-la radicalmente. A longevidade e a preservação das características básicas da obra ao longo dos milênios, segundo o professor, demonstram a importância do respeito ao contexto cultural grego. A constante representação de Helena como branca em diversas manifestações artísticas ao longo da história reforça o argumento de que a etnia da personagem é um elemento intrínseco à sua concepção original.
“Se ela é uma ficção e pode ser alterada da maneira como qualquer pessoa quiser, por que os tradutores não tiram do texto ‘Helena de braços brancos’ e colocam ‘Helena de braços negros’ então?”, questiona Braga. Ele conclui que a obra pertence a um povo que a criou e a cultuou por milênios, e que sua representação deve honrar essa herança cultural, em vez de ceder a distorções modernas.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br