O Voto de Desempate Contra a Verdade Geográfica
Em uma decisão que surpreendeu a comunidade internacional, os Estados Unidos foram o único país a votar contra uma resolução na ONU que incentivava a adoção de projeções cartográficas mais precisas, corrigindo as distorções visuais da tradicional Projeção de Mercator. A iniciativa, apelidada de “Corrija o Mapa” e apoiada pela União Africana, busca apresentar um retrato mais fiel das dimensões dos continentes, que, na projeção centenária, aparecem significativamente alteradas, com áreas próximas aos polos ampliadas e regiões equatoriais, como a África, subdimensionadas.
A Interpretação Americana: “Projeto Ideológico Radical”
A justificativa apresentada pelos EUA, sob o governo Trump, foi a de que a mudança cartográfica fazia parte de um “projeto ideológico radical maior” e de uma “guerra cultural”. Segundo Yaryna Ferencevych, vice-representante americana na ONU, a proposta, embora apresentada como um ajuste técnico, estaria intrinsecamente ligada a pautas que buscam dar maior visibilidade a países fora do eixo ocidental. Essa retórica ecoa posições anteriores do governo Trump, que já acusou a ONU e a Unesco de promoverem agendas “ideológicas e globalistas” contrárias à política de “America First”.
A Luta por Representatividade e a Projeção de Mercator
A Projeção de Mercator, amplamente utilizada em documentos e materiais educacionais por séculos, foi originalmente desenvolvida para a navegação. No entanto, sua distorção visual é notória: a Groenlândia, por exemplo, aparece com uma área semelhante à da África, quando, na realidade, o continente africano é cerca de 14 vezes maior. A iniciativa “Corrija o Mapa” propõe alternativas, como o modelo “Terra Igual”, que buscam preservar melhor as proporções e oferecer uma representação mais equitativa das massas terrestres. Defensores da resolução argumentam que mapas não são apenas ferramentas geográficas, mas também influenciam a percepção global e podem perpetuar visões desequilibradas.
Um Debate Além da Cartografia
O ministro das Relações Exteriores de Togo, Robert Dussey, um dos líderes da iniciativa, ressaltou que a aprovação da resolução representa uma defesa da “verdade científica” e aborda a forma como diferentes povos e territórios são percebidos. A resolução também se alinha ao Pacto para o Futuro da ONU, que visa combater desigualdades históricas e estruturais. Apesar do voto contrário dos EUA e da abstenção de outros países, a resolução incentiva a consideração de modelos cartográficos mais precisos, abrindo caminho para uma futura atualização da forma como vemos o mundo.
Fonte: g1.globo.com
