A Armadilha do Endividamento Digital
A necessidade de manter o trabalho em aplicativos de entrega na Argentina tem levado muitos trabalhadores a recorrerem a empréstimos com juros elevados, criando um ciclo vicioso de dívidas. Quando veículos são apreendidos por infrações de trânsito, o custo para recuperá-los, somado a multas e taxas, pode ultrapassar o faturamento diário de um entregador. Sem recursos próprios, a solução encontrada tem sido a contratação de crédito junto a fintechs e, em muitos casos, diretamente pelos próprios aplicativos de entrega.
Juros Salgados e Dependência Crescente
Empresas como PedidosYa oferecem empréstimos a taxas anuais de 131%, enquanto a carteira digital Personal Pay chega a cobrar 170%. Albert Quintero, um entregador de 41 anos, exemplifica a situação: um dia de trabalho rende cerca de US$ 46, mas a liberação de uma moto apreendida pode custar US$ 90 em multas e taxas. Essa disparidade força muitos a buscarem crédito, aumentando a dependência dos aplicativos para garantir a renda e, paradoxalmente, aprofundando o endividamento.
Cenário Econômico e o Aumento das Dívidas Atrasadas
O cenário de endividamento se agrava em um contexto de aumento do custo de vida e instabilidade no emprego na Argentina. O número de empréstimos concedidos por fintechs no país cresceu exponencialmente nos últimos sete anos. Paralelamente, quase 6 milhões de argentinos já possuem dívidas com mais de 90 dias de atraso, um reflexo da dificuldade crescente em honrar compromissos financeiros. A taxa de empréstimos familiares em atraso atingiu o maior patamar desde 2010, um salto significativo desde o final de 2023.
Mudança de Paradigma e Impacto nos Jovens
Analistas apontam que a situação atual contrasta com períodos anteriores de alta inflação, onde o peso das dívidas diminuía com o tempo. Agora, com juros que superam a inflação, as dívidas se tornam mais onerosas. Jovens, em particular, são apontados como os mais afetados, muitas vezes obtendo crédito facilmente por meio de carteiras digitais sem plena consciência dos juros a serem pagos. Há uma pressão crescente por medidas que aliviem o peso dessas dívidas, mas o governo tem se mostrado resistente a intervenções estatais, considerando a questão uma relação privada entre credor e devedor.
Fonte: g1.globo.com
