Em um período em que o Universo Cinematográfico Marvel (MCU) sequer era uma ideia e as adaptações de quadrinhos para o cinema eram sinônimo de fracasso – vide Capitão América – O Filme (1990) e O Quarteto Fantástico (1994) –, um herói surgiu das sombras para mudar o jogo. Blade: O Caçador de Vampiros, estrelado por Wesley Snipes em 1998, chegou às telonas com uma proposta ousada: couro preto, espada, o sangue dos inimigos em suas mãos, e uma atmosfera de terror e ação que estava a anos-luz do padrão familiar. Agora, a trilogia completa de Blade chega à Netflix, oferecendo uma oportunidade imperdível para redescobrir a obra que pavimentou o caminho para o sucesso moderno da Marvel nas telonas.
O Pioneiro Sombrio da Marvel no Cinema
Muitos atribuem a X-Men (2000) o início do “boom” que trouxe sucesso às adaptações de histórias em quadrinhos, mas foi a produção de Wesley Snipes, dirigida por Stephen Norrington, que verdadeiramente demonstrou que o formato poderia funcionar fora das páginas. Longe dos moldes coloridos e infantilizados que ainda marcavam a percepção popular dos super-heróis nos anos 90, Blade: O Caçador de Vampiros trouxe uma realidade mais sombria e cheia de nuances. Não era uma obra feita para crianças, mas sim para jovens e adultos – algo inédito, até então, e que a Marvel reconhece como um marco da “era moderna” dos filmes baseados em HQs.
O sucesso foi ímpar e sem precedentes para o gênero na época, arrecadando US$ 130 milhões globalmente e garantindo a produção de duas sequências. A fórmula de sua popularidade passava longe do que já vimos do MCU: o meio-humano, meio-vampiro apresentava horror urbano, clubes góticos, sugadores de sangue corporativos e um anti-herói estiloso que lutava com uma espada e utilizava artes marciais. Na prática, Blade estabeleceu uma identidade própria antes mesmo do que foi construído pelos mutantes, pelo Homem-Aranha e os demais filmes que chegariam pós-2000. Se eles tiveram um caminho a pavimentar, foi Blade quem deu o primeiro passo de forma autêntica.
A Origem de Blade: Dos Quadrinhos às Telas
Para ter uma base histórica, o andarilho do dia foi introduzido nas HQs em junho de 1973, na revista Tomb of Dracula #10 — criada por Marv Wolfman e Gene Colan. Esta vertente trazia uma abordagem diferente dos quadrinhos convencionais, com uma realidade mais sombria e repleta de terror. A trama acompanhava a jornada de vários heróis que lutavam contra a ameaça de Drácula e outros seres sobrenaturais, e em sua primeira aparição, Blade era apenas um coadjuvante dentro desta jornada.
Sua história, contudo, era muito mais ampla. Eric Brooks, originalmente, era um recém-nascido que viu sua mãe sofrer com a mordida de um vampiro. Assim, certas enzimas passaram para ele, tornando o personagem imune à espécie. Deste modo, sem sofrer com a maior arma dos sugadores de sangue, ele jurou exterminá-los em definitivo. Assim como a teia orgânica do Homem-Aranha (2002) foi uma invenção para os cinemas, o filme de Blade também modificou a sua origem, mostrando o anti-herói como um dhampir – um ser que é metade humano, metade vampiro. Porém, seu objetivo é o mesmo: se vingar dos vampiros que mataram a sua mãe.
Geralmente, o personagem se encaixa no núcleo mais sombrio da Marvel. Ele é visto ao lado de grupos como os Caçadores da Noite, Filhos da Meia-Noite e, mesmo que já tenha integrado os Vingadores em certos momentos, não é algo “comum” ao herói. Podemos colocar Blade na mesma estante que o Motoqueiro Fantasma, Lobisomem, Cavaleiro da Lua e outros que tentam impedir que o mundo sobrenatural impacte o cotidiano.
Estilo Noventista e Relevância Atemporal
É importante notar que o fim da década de 1990 teve todo um movimento artístico que, hoje, é visto com um tom nostálgico. Os figurinos de couro, a violência estilizada e a trilha eletrônica não estavam presentes apenas em Blade: O Caçador de Vampiros. Filmes como Matrix (1999) e até Anjos da Noite: Underworld (2003) beberam muito desta fonte e se mostravam como uma verdadeira base de expressividade para uma geração. O cinema de ação noventista, até o início dos anos 2000, tinha uma marca registrada que o diferenciava.
Com isso em mente, é possível notar que esses filmes se tornaram verdadeiras cápsulas do tempo. Claro, vemos exageros, frases de efeito e soluções visuais que podem parecer datadas, mas também há toda uma personalidade e uma autenticidade que muitos filmes atuais não conseguem alcançar. Além disso, a franquia Blade conversa com públicos muito diferentes – simultaneamente. Ele é feito para fãs da Marvel, fãs de vampiros, para quem gosta de longas de ação brutal e, hoje em dia, até para quem sente saudade de uma época em que adaptações de HQs não seguiam uma fórmula pronta.
Seja pela sua estética marcante, seja por sua multilateralidade ou por contar uma excelente história, a trilogia de filmes continua a ser incrível. Inclusive, se você assistiu a Deadpool & Wolverine (2024) e o viu por lá, é uma ótima forma de “voltar no tempo” para saber a importância que o protagonista carrega no universo Marvel.
Qual a Ordem Certa para Maratona e Por Que Assistir?
Muitas produções cinematográficas atuais confundem o público, com prequels, spin-offs e sequências não-lineares. Contudo, a franquia do meio-vampiro não passa por este perrengue. Você deve assistir aos longas diretamente na ordem em que eles foram lançados, a partir da sequência abaixo:
- Blade: O Caçador de Vampiros (1998)
- Blade II: O Caçador de Vampiros (2002)
- Blade: Trinity (2004)
O verdadeiro ancestral da dominação dos super-heróis nos cinemas, a franquia é um “elo perdido” que mistura o clima do fim dos anos 90 com uma boa narrativa e ação. Somado ao horror e referências aos super-heróis, ele se encaixa muito bem para quem está “fatigado” das obras mais recentes. Além disso, é uma excelente maratona na Netflix para quem deseja entender como a Marvel chegou ao mainstream – antes mesmo do MCU existir. Na prática, começo, meio e fim não estão presos a nenhuma outra obra, e isso facilita a compreensão dos seus eventos.
Vale ressaltar também que a Marvel Studios desejava trazer o personagem de volta – através de Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz da Lua). Porém, o projeto segue congelado há anos, e talvez voltar ao passado seja a sua única oportunidade de ver o anti-herói em atividade em um filme próprio. Caso vá assistir, o primeiro Blade é essencial e não pode ser pulado de forma alguma. Blade II tem um estilo mais autoral e monstruoso, o que contrasta bem e pode ajudar a compreender melhor como funciona seu universo. Já Blade: Trinity é indispensável para quem passou por todos os demais, para ver a conclusão da jornada de Wesley Snipes.
A chegada da trilogia Blade à Netflix não é apenas a adição de “filmes antigos”, mas uma verdadeira parte da história geek nos cinemas. Se tivemos os emblemáticos X-Men, o Homem-Aranha de Sam Raimi e o início do MCU, foi graças à ousadia e ao sucesso dessa produção dos anos 90. Seu envelhecimento é aparente em alguns aspectos, mas ainda traz um universo Marvel mais sujo, sombrio e violento – antes de toda a fórmula moderna e aos milhares de filmes de origem, spin-offs e todo um trabalho que o fã deve ter para consumir algo.
Se você gosta de ação estilizada, vampiros de verdade e sente bastante nostalgia (ou curiosidade) pelos anos 1990 e 2000, a adaptação das HQs é o ponto de partida perfeito para você maratonar hoje. Prepare a pipoca e embarque na jornada do Caçador de Vampiros!
Fonte: canaltech.com.br
