Ajuste Fiscal Argentino Gera Debate: Lições para o Brasil?
Em meio a tensões diplomáticas e críticas do governo brasileiro ao presidente argentino, Javier Milei, analistas econômicos sugerem que o Brasil pode ter mais a aprender do que a ensinar sobre gestão fiscal com a Argentina. Apesar de o Brasil apresentar indicadores macroeconômicos superiores em alguns aspectos, economistas ouvidos pela reportagem destacam a trajetória de correção e os resultados do ajuste fiscal promovido por Milei, contrastando com a situação brasileira.
Tendência de Indicadores: O Ponto Cego na Comparação Estática
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, criticou publicamente Milei, citando o alto risco país, dívida pública e inflação argentinos. No entanto, economistas como Marcos Vinícius Oliveira, da ZIIN Investimentos, argumentam que essa comparação é estática e omite a direção dos indicadores. Ao assumir, a Argentina enfrentava inflação acima de 200% e dívida pública de 156% do PIB, herdadas do governo anterior. Atualmente, a inflação mensal está em torno de 2% e a dívida caiu para 78,4% do PIB. Em 2024 e 2025, o país registrou superávits primários, um feito inédito em 14 anos, com o PIB crescendo 4,4% em 2025, superando os 2,3% do Brasil no mesmo período. O risco país argentino despencou 70% desde dezembro de 2023.
Brasil na Contramão: Déficits e Dívida em Ascensão
Em contrapartida, o Brasil tem apresentado déficits primários, com R$ 43 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025, segundo o Tesouro Nacional. A dívida bruta atingiu 81,1% do PIB em maio, o maior nível em cinco anos. A projeção oficial da inflação para o ano é de 5,1%, bem acima da meta do Banco Central. “Ou seja, ainda que o Brasil esteja em um patamar superior, a Argentina está subindo a ladeira, enquanto o Brasil está descendo”, compara Oliveira.
Ajuste pelo Gasto: A Lição da Argentina
Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, ressalta que, embora a Argentina enfrente desafios sociais, poucos governos conseguiram um ajuste fiscal tão profundo em tão pouco tempo. O país saiu de déficits recorrentes para superávits primários, com a inflação despencando em relação ao seu ponto de partida. Um diferencial chave é a estratégia de ajuste fiscal: enquanto o Brasil foca em aumento de arrecadação, a Argentina cortou gastos públicos. O gasto primário argentino caiu 27% em termos reais em 2024, com a eliminação de mais de 1.300 normas e o fechamento de órgãos estatais. “Historicamente, o ajuste pelo lado do gasto tende a ser mais estrutural e mais respeitado pelo mercado do que o ajuste pelo lado da receita”, explica Oliveira. Para os analistas, a âncora fiscal e o compromisso com o superávit, concentrados em despesas, são princípios que o Brasil deveria considerar, em vez de usar a Argentina como bode expiatório político.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br