A imposição de uma tarifa de 25% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, com entrada em vigor prevista para 22 de julho, tem gerado apreensão sobre o possível encarecimento de eletrônicos no Brasil. Contudo, a análise inicial aponta que celulares, notebooks, tablets e outros dispositivos não devem sofrer um aumento automático de preços.
Os Eletrônicos Vão Ficar Mais Caros Imediatamente?
A resposta direta é não. A tarifa anunciada pelos EUA incide sobre o que o Brasil exporta para o mercado americano, não sobre os produtos que o país importa. A lista de bens tarifados inclui etanol, vestuário, calçados, máquinas agrícolas e manufaturados brasileiros, conforme divulgado pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).
A maior parte dos eletrônicos comercializados no varejo brasileiro tem origem asiática, principalmente China e Vietnã, ou é montada em território nacional, na Zona Franca de Manaus. Ricardo Schirmer, sócio do Unikowski Advogados, esclarece que a nova cobrança atinge quem exporta do Brasil para os EUA, e não quem adquire eletrônicos no varejo nacional. “O aparelho que o consumidor brasileiro compra não é exportado do Brasil para os Estados Unidos, o Brasil é um forte importador desses produtos”, afirma.
Segundo o Ministério da Fazenda, a China responde por cerca de 46% dos celulares importados pelo Brasil, seguida pelo Vietnã, com 7,9%. Além disso, 95% dos smartphones vendidos no Brasil em 2025 foram montados localmente, reforçando a dependência de componentes asiáticos, o que distancia o “tarifaço” dos EUA do preço final desses produtos no varejo brasileiro. Olívia Flôres, CEO da Magno Investimentos, resume: “O imposto americano incide sobre produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos, e não sobre celulares produzidos na Ásia ou notebooks vendidos no varejo brasileiro”.
Os Caminhos Indiretos para o Aumento de Preços
Mesmo sem um impacto direto, existem fatores indiretos que podem levar a um aumento nos preços. Uma eventual valorização do dólar, causada pela piora da percepção de risco sobre a economia brasileira, encareceria componentes importados como semicondutores, telas e chips, que são cotados na moeda americana. Custos logísticos mais altos e uma possível retaliação brasileira também poderiam pressionar os preços, embora esses efeitos não decorram diretamente da tarifa americana.
Para o consumidor brasileiro, Ricardo Schirmer aponta o caminho mais provável para qualquer reajuste: “Para o consumidor brasileiro, um eventual aumento seria indireto, decorrente sobretudo de efeitos sobre o aumento do preço do dólar ou por eventual retaliação do governo brasileiro”. O câmbio, o custo de frete internacional e a logística global são, nesse cenário, mais determinantes do que a tarifa dos EUA.
E a Lei de Reciprocidade Econômica?
A Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025, permite ao governo brasileiro suspender concessões comerciais e elevar tarifas sobre produtos de países que imponham barreiras contra o Brasil. O Governo Federal confirmou que retomará os trâmites para acionar esse mecanismo.
Caso a retaliação avance, alguns eletrônicos, softwares corporativos, máquinas industriais, produtos químicos, medicamentos e componentes eletrônicos importados especificamente dos Estados Unidos poderiam sofrer aumento de custos, que tende a ser repassado ao consumidor. No entanto, a própria lei prevê limites, determinando que as medidas de resposta devem minimizar o impacto sobre a atividade econômica brasileira e evitar custos administrativos desnecessários, o que reduz a chance de um reajuste generalizado e imediato em toda a cadeia de eletrônicos.
O Pix é o Culpado? E Por Que os EUA Tarifaram o Brasil?
O sistema de pagamentos instantâneos Pix aparece na investigação dos EUA, mas não é o único ou o principal motivo do tarifaço. O USTR citou uma série de práticas brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses americanos, incluindo regulação de plataformas digitais, propriedade intelectual, combate à corrupção, desmatamento e tarifas preferenciais concedidas a outros parceiros comerciais como México e Índia.
O economista Roberto Kanter, professor da FGV, considera exagerado atribuir ao Pix o peso da decisão. “A importância do PIX é puramente o marketing. É uma justificativa criada”, afirma, destacando que o impacto do sistema sobre bandeiras de cartão americanas é pequeno diante do volume total de comércio entre os dois países. A decisão dos EUA é resultado de uma investigação de um ano sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que apura práticas comerciais consideradas desleais. O governo brasileiro rejeita as acusações, classificando a decisão como um “marco lastimável” e planeja acionar tanto a Lei de Reciprocidade quanto o mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
Fonte: canaltech.com.br
