Sem ‘Girl Power’? O Cancelamento de Filme Feminino da Pixar Levanta Questões Sobre a Aversão de Hollywood a Narrativas Protagonizadas por Mulheres

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Sem ‘Girl Power’? O Cancelamento de Filme Feminino da Pixar Levanta Questões Sobre a Aversão de Hollywood a Narrativas Protagonizadas por Mulheres

A animação ‘Be Fri’, sobre a jornada de duas amigas adolescentes, foi descartada por ser considerada ‘feminina demais’ pela Disney, expondo um padrão preocupante na indústria do entretenimento.

Hollywood e a indústria do entretenimento têm demonstrado, historicamente, uma complexa relação com o empoderamento feminino. Embora avanços tenham sido feitos com movimentos como o #MeToo, o cenário ainda está longe do ideal. Um caso recente na Pixar, com o cancelamento de uma animação promissora, ‘Be Fri’, acende um alerta sobre o silenciamento de vozes femininas.

‘Be Fri’: A História de Duas Amigas e Seu Fim Inesperado

Desenvolvido há cerca de três anos, ‘Be Fri’ era uma ideia original da diretora Kristen Lester, conhecida por seu curta ‘Purl’ (2019). A trama prometia uma aventura envolvente, inspirada nas experiências pessoais de Lester, acompanhando duas melhores amigas adolescentes que, após perderem contato, se reencontravam para descobrir que seu programa favorito, uma série no estilo ‘Sailor Moon’, era real. Juntas, elas embarcariam em uma jornada interdimensional para salvar a humanidade.

Contudo, a produção nunca avançou. Segundo reportagens do Wall Street Journal, ‘Be Fri’ foi cancelada no final de 2023, apesar de ter passado por quatro grandes reformulações e uma tentativa de reescrever o roteiro em tempo recorde para atender às exigências da Disney. Todo o esforço foi em vão, e o projeto foi abandonado pela Pixar quando estava prestes a entrar na fase de animação, deixando uma equipe de cerca de 50 pessoas perplexa.

O Veredito: ‘Feminino Demais’

O motivo por trás do cancelamento de ‘Be Fri’ chocou muitos. Um ex-funcionário da Pixar, que optou por não se identificar, revelou ao The Hollywood Reporter que, mesmo após as reformulações exigidas pela Disney, o trabalho da diretora e dos artistas de storyboard foi engavetado porque era considerado “feminino demais”.

Este episódio não é isolado dentro do estúdio. O cancelamento de ‘Be Fri’ ocorreu em um período conturbado para a Pixar, marcado pelo fracasso de bilheteria de ‘Lightyear’ (2022) e a polêmica remoção de um beijo entre pessoas do mesmo sexo. Na mesma época, ‘Elio’ (2025) também passou por uma reformulação para retirar uma trama LGBTQIA+. Pete Docter, diretor criativo da Pixar, chegou a afirmar em março de 2026 que a decisão foi tomada porque a empresa “estava fazendo um filme, não gastando centenas de milhões de dólares em terapia”, gerando ainda mais controvérsia. Nos bastidores, a preocupação com a opinião pública parece estar levando a Pixar a abandonar a ousadia que a tornou relevante, em busca de números de bilheteria mais fáceis.

Hollywood e Pixar Erram ao Ignorar o Potencial Feminino

O tratamento de ‘Be Fri’ como “girl power demais” pela Disney expõe um problema crônico em Hollywood: a relutância em dar destaque a histórias protagonizadas por mulheres, optando por silenciar vozes femininas em vez de apostar em narrativas originais e representativas.

No caso da Pixar, apesar de ter produzido algumas histórias com protagonistas femininas, elas são poucas. Pós-pandemia, ‘Red: Crescer é uma Fera’ (2022) foi lançado diretamente no Disney+ sem grande alarde, enquanto ‘Divertida Mente 2’ (2024) se tornou um blockbuster, batendo recordes de bilheteria e se tornando a animação mais lucrativa da história do estúdio. Isso mostra que, mesmo diante do silenciamento, histórias com mulheres podem, e muito, ser um sucesso estrondoso.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’ (2025), que possui uma energia similar ao projeto cancelado da Disney, é a prova cabal de como a Pixar e a indústria estão equivocadas. A animação da Netflix, que chegou sem muito alarde, tornou-se um dos maiores sucessos de 2025, conquistando o Oscar de Melhor Animação em 2026, com canções originais no topo das paradas musicais, mostrando o imenso potencial de histórias protagonizadas por mulheres.

O Sucesso Comprova: Filmes com Mulheres Que Conquistaram o Público

Apesar da resistência, inúmeras produções estreladas por mulheres provam que há um vasto público sedento por essas narrativas. Veja alguns exemplos:

  • Franquia Jogos Vorazes (2012-2015): Inspirada na saga literária de Suzanne Collins, introduziu Katniss Everdeen, uma das personagens femininas mais fortes e complexas da ficção, interpretada por Jennifer Lawrence. Os filmes acompanham a jornada de sobrevivência e rebelião de Katniss na distópica Panem. (Onde assistir: Prime Video, Mercado Play)
  • Guerreiras do K-Pop (2025): Aclamada animação que narra a história de Rumi, Mira e Zoey, que formam o grupo de k-pop HUNTR/X e secretamente lutam contra forças sobrenaturais para proteger seus fãs. Um fenômeno que conquistou o Oscar de Melhor Animação em 2026. (Onde assistir: Netflix)
  • Barbie (2023): Estrelado por Margot Robbie e dirigido por Greta Gerwig, o filme da boneca mais famosa do mundo foi um fenômeno cultural. Celebrou o poder feminino com uma história comovente e inspiradora sobre Barbie descobrindo o mundo real. (Onde assistir: HBO Max)
  • Frozen: Uma Aventura Congelante (2013): Um dos maiores sucessos da própria Disney, centrado nas irmãs Anna e Elsa. Com hits como ‘Livre Estou’, ‘Frozen’ se tornou uma das histórias mais emblemáticas do estúdio, provando o sucesso de tramas femininas. (Onde assistir: Disney+)
  • As Meninas Superpoderosas: Clássico do Cartoon Network que marcou gerações. Florzinha, Lindinha e Docinho, um trio de heroínas criadas acidentalmente, protegem Townsville de supervilões, mantendo-se relevantes até hoje. (Onde assistir: HBO Max)
  • Três Espiãs Demais: Outra série animada icônica dos anos 2000, acompanhava Sam, Clover e Alex em uma vida dupla como agentes secretas, lutando contra o crime internacional enquanto frequentavam a escola. (Onde assistir: HBO Max, Prime Video)
  • Frieren e a Jornada para o Além: O universo dos animes também brilha com histórias como esta, inspirada no mangá de Kanehito Yamada. Acompanha uma elfa que, após derrotar um rei demônio, embarca em uma missão pessoal para encontrar um novo modo de vida. (Onde assistir: Crunchyroll, Netflix)
  • Red: Crescer é uma Fera (2022): A própria Pixar lançou esta animação focada na vivência asiática e na puberdade feminina. Acompanha Mei Lee, uma adolescente sino-canadense que se transforma em um panda vermelho gigante sempre que sente emoções intensas. (Onde assistir: Disney+)

Esses exemplos demonstram que o público não apenas aceita, mas anseia por histórias bem contadas e protagonizadas por mulheres, evidenciando que a decisão de cancelar ‘Be Fri’ por ser “feminina demais” foi, além de um equívoco criativo, um erro de mercado.

Fonte: canaltech.com.br

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