O Steam, da Valve, é inegavelmente a maior e principal plataforma de games no PC. A preferência dos PC gamers por este ecossistema é quase unânime, com inúmeros estúdios optando por publicar seus jogos lá, dada a enorme visibilidade e a chance de alcançar um público massivo. Para desenvolvedores menores, sem orçamentos robustos para marketing, essa vitrine é crucial.
No entanto, algumas das maiores publishers da indústria de jogos decidiram, em diferentes momentos, desafiar essa hegemonia. Seja para evitar a taxa de 30% da Valve, para construir seus próprios lançadores ou para fechar acordos de exclusividade com outras plataformas, a aposta de sair do Steam quase sempre resultou em prejuízos severos e, em muitos casos, em um retorno humilhante à plataforma original. Vamos analisar os seis piores casos de produtoras que tentaram vender fora do Steam e falharam.
Os Prejuízos de Desafiar a Hegemonia do Steam no PC
Remedy
Apesar de ser um dos jogos mais aclamados pela crítica em 2023 e disputar prêmios de Jogo do Ano, Alan Wake 2 enfrentou sérios problemas comerciais no PC. O contrato de exclusividade com a Epic Games Store, que financiou a produção, limitou severamente seu alcance. O público fiel do Steam hesitou em migrar de loja, e o resultado financeiro foi amargo para a Remedy. O estúdio levou quase um ano para recuperar os custos de produção e marketing, acumulando zero lucros de royalties por vários trimestres. A qualidade técnica e narrativa, por si só, não foi suficiente para compensar a ausência na maior vitrine e comunidade ativa do PC.
Ubisoft
Anos atrás, a Ubisoft tomou a decisão estratégica de abandonar o Steam para evitar a taxa de 30% da Valve. Grandes lançamentos como The Division 2 e Assassin’s Creed Valhalla foram lançados exclusivamente na Epic Games Store e em seu próprio aplicativo, o Ubisoft Connect. A promessa era forçar os jogadores a adotarem o ecossistema da editora francesa, aumentando as margens de lucro por cópia vendida. A estratégia, contudo, falhou miseravelmente. A rejeição do público a múltiplos launchers e a perda de visibilidade orgânica estagnaram as vendas no PC. A humilhação veio anos depois: a Ubisoft retornou ao Steam sob forte pressão financeira, admitindo que pagar os 30% da Valve é muito mais barato do que ser invisível no mercado de PC.
Electronic Arts
A EA foi uma das pioneiras no movimento de separação do Steam. Em 2011, lançou o Origin e gradativamente retirou franquias de peso como Battlefield, The Sims e Mass Effect da loja da Valve. A publisher acreditava que seu catálogo era poderoso o suficiente para sustentar uma plataforma própria de distribuição digital e ditar as regras do mercado de PC. Após quase uma década de resistência e constantes reclamações dos usuários sobre a estabilidade e a interface do aplicativo, a EA reconheceu o teto de seu crescimento isolado. Em 2019, a empresa iniciou seu retorno oficial ao Steam, trazendo seus principais jogos de volta. A cartada final veio com grandes títulos recentes, que voltaram a priorizar a vitrine do Steam para garantir volume de vendas.
Square Enix
A Square Enix insistiu em fechar acordos de exclusividade temporária, primeiro com o PlayStation e depois com outras plataformas no PC, o que se provou um verdadeiro tiro no pé. Títulos caríssimos como Final Fantasy VII Remake e todos os Kingdom Hearts (que chegaram ao PC primeiro via Epic) e, mais recentemente, Final Fantasy XVI e Rebirth, viram suas curvas de vendas despencarem por estarem fora da maior plataforma de PC no momento mais crucial: o lançamento. O impacto nas contas da empresa foi direto, resultando em quedas nas ações e em relatórios financeiros que admitiam vendas “abaixo das expectativas”. Diante do prejuízo acumulado, a direção da Square Enix anunciou publicamente uma reformulação de negócios, abandonando a estratégia de exclusividade e assumindo um compromisso de lançamentos multiplataforma simultâneos.
Take-Two/Gearbox
Em 2019, o anúncio de que Borderlands 3 seria exclusivo da Epic Games Store por seis meses gerou uma reação negativa imediata da comunidade de jogadores de PC. A decisão da Gearbox e da Take-Two de trocar o alcance do Steam por um pagamento adiantado da Epic resultou em um grande movimento de review-bombing contra os títulos anteriores da franquia na loja da Valve. Embora o acordo tenha garantido uma injeção rápida de caixa para a publisher, a exclusividade limitou o potencial de engajamento do jogo no lançamento. Quando Borderlands 3 finalmente estreou no Steam meio ano depois, o pico de jogadores simultâneos na plataforma dobrou em questão de dias, evidenciando que uma parcela massiva do público preferiu esperar o fim da exclusividade a ter que comprar fora do Steam.
Bethesda
A tentativa da Bethesda de erguer os muros de seu próprio ecossistema com o Bethesda Launcher em 2018 começou com o pé esquerdo. Buscando fugir das comissões do Steam, a empresa forçou títulos como Fallout 76 e Rage 2 a rodarem exclusivamente em sua plataforma. O aplicativo, no entanto, sofria com graves falhas de segurança, erros na destruição e recriação de arquivos e uma experiência de usuário ruim. O fracasso técnico somado ao desastre de engajamento de Fallout 76 transformou o launcher em um fardo para a publisher. Em 2022, a Bethesda encerrou oficialmente a plataforma, transferiu as contas, dados de jogos e carteiras de todos os usuários de volta para o Steam, deixando claro o quão desastrosa foi sua decisão.
A lição é clara: a comunidade de PC gamers valoriza a conveniência e a centralização oferecidas pelo Steam. Os maiores casos de fracasso nesse sentido, atualmente, são de jogos lançados primeiramente na Epic Games Store. O mais recente deles aconteceu com Lords of the Fallen 2, que inicialmente era prometido como exclusivo da dona do Fortnite, mas diante de uma repercussão muito negativa pelos fãs do primeiro jogo, a CI Games voltou atrás e afirmou que o lançamento acontecerá também no Steam, mostrando que o mercado aprendeu, mesmo que a duras penas, a não subestimar o poder da plataforma da Valve.
Fonte: canaltech.com.br
