Pensar é Subversivo na Era Digital? Entenda Como a Censura Velada, a Autocensura e o Excesso de Informação Moldam a Liberdade de Expressão Global

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Em um mundo cada vez mais conectado e, paradoxalmente, polarizado, a simples ação de pensar criticamente parece ter se transformado em um ato subversivo. Longe de ser uma mera provocação filosófica, essa percepção reflete uma complexa teia de mecanismos de controle que se manifestam de formas explícitas e, sobretudo, veladas, moldando a liberdade de expressão na era digital.

A censura, em sua essência, é o exercício de um poder assimétrico, cujo objetivo primordial é suprimir declarações hostis, contrárias ou desfavoráveis a entidades ou indivíduos em posição de dominância. No entanto, sua força não reside apenas na imposição direta, mas na capacidade de gerar medo – um elemento crucial para sua propagação. Esse medo, por sua vez, alimenta a autocensura, um pacto silencioso que o indivíduo faz consigo mesmo para evitar consequências negativas, que podem variar da ruptura de laços sociais à perda de emprego, perseguição e, em situações extremas, até a morte. É um mecanismo de autopreservação que pode violar os parâmetros tradicionais dos direitos humanos.

O Poder do Medo e a Autocensura

Mariano José de Larra definiu a censura como uma ordem de comportamento onde a crítica é proscrita. Embora poucos governos contemporâneos se enquadrem abertamente em termos tão ditatoriais, a realidade é mais sutil. Mesmo regimes autocráticos podem permitir uma oposição controlada, uma ‘abertura simulada’ que serve para legitimar o próprio poder, sem que a crítica se torne uma ameaça real. A censura, assim, não precisa ser explícita para ser eficaz.

Ademais, a censura não é um monopólio do setor público. O mundo empresarial reconheceu e capitalizou as vantagens de silenciar vozes, um processo facilitado exponencialmente pelas plataformas digitais. Hoje, o silêncio não é mais o único caminho. Conforme a máxima atribuída a Goebbels, basta impor um discurso avassalador, repetido incessantemente, para que a censura surja ‘como num passe de mágica’. Distrair, distorcer e, crucialmente, inundar as redes com informações falsas ou manipuladas – seja para encobrir crimes ou apagar genocídios – tornou-se uma ferramenta poderosa.

Além da Censura Estatal: O Silêncio Digital

Nesse cenário, grandes esforços para calar vozes dissidentes tornam-se desnecessários. A hipérbole do boato é suficiente. Assim como o Conde de Monte Cristo manipulou redes telegráficas em sua vingança, grandes conglomerados de mídia orquestram narrativas em suas filiais, editorializando eventos com adjetivos, heróis e vilões predefinidos. Qualquer crítica é rapidamente desconstruída sob o argumento de que o objetivo nunca foi informar, mas entreter.

As grandes empresas digitais, movidas por lucros e acionistas, impõem uma nova e sutil relação entre indivíduo, governo e sociedade. Lobistas utilizam tecnicismos para manter elementos fora da legislação, enquanto acusações de ‘colonialismo digital’ emergem contra aqueles que resistem a revisar marcos legais. O princípio subjacente persiste: não é preciso educar, mas confundir e rotular como ‘extremistas’ as discussões sobre soberania digital.

A Hiper-informação como Arma e o Colonialismo Digital

A situação se agrava ao aceitarmos a premissa de que avançamos para narrativas globais que, muitas vezes, negligenciam os mais vulneráveis, apostando em soluções de livre mercado que ignoram a assimetria de riqueza. Pensar, nesse contexto, torna-se um ato verdadeiramente subversivo. A consequência imediata é a adoção passiva da autocensura, intensificada por uma ‘ageografia’ que permite o controle do comportamento da ‘vítima’ em qualquer lugar e a qualquer momento. Um simples comentário ‘desfavorável’ ao poder vigente pode ser registrado para a posteridade, afetando incontáveis futuros. O perdão e a memória não se alinham mais neste novo mundo digital.

Como Larra observou, ‘o que é permitido é elogiar’, reduzindo a crítica a uma caricatura volteriana de que vivemos ‘no melhor dos mundos possíveis’. Discordar significa mergulhar no silêncio; a verdade torna-se contraproducente e perigosa. A liberdade de expressão, outrora um direito fundamental, transfigura-se em um conceito meramente filosófico. Um ato de rebeldia de poucos caracteres pode resultar em ostracismo profissional, na negação de vistos de turismo e na redução do mundo a vídeos curtos e superficiais de Instagram e TikTok, centrados exclusivamente no entretenimento.

Pensar, Discordar e as Consequências no Novo Mundo

Fonte: canaltech.com.br

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