A Nostalgia, Uma Antiga “Doença”
O que hoje associamos a um sentimento terno de saudade, a nostalgia, era originalmente descrita como uma enfermidade. O termo, cunhado em 1688 pelo médico suíço Johannes Hofer, provém das palavras gregas ‘nostos’ (retorno) e ‘algos’ (dor). Hofer a utilizou para diagnosticar soldados mercenários que sofriam de apatia, insônia e incapacidade de funcionar quando longe de casa. Era a dor de estar deslocado, de saber para onde retornar, mas não conseguir fazê-lo.
Nolan e a “Nostalgia” Cinematográfica
O autor da crônica levanta uma hipótese intrigante: será que Christopher Nolan, ao conceber seu filme ‘Oppenheimer’, que aborda o dilema de Ulisses e a bomba atômica, não estaria, na verdade, explorando uma forma de nostalgia? O Ulisses de Nolan não seria o herói do retorno, mas sim um homem atormentado pela culpa, incapaz de voltar verdadeiramente para casa. Essa ‘nostalgia’ cinematográfica, segundo o autor, reflete um medo do presente e uma profecia de futuro sombrio.
Ícones Pop e o Refúgio Nostálgico
A frustração com um filme recente do He-Man, descrito como ‘temerário’ e ‘ruim’, e a notícia sobre o possível retorno de Macaulay Culkin como Kevin em ‘Esqueceram de Mim’ servem como pontos de partida para a reflexão. O autor sugere que, assim como ele se sentiu constrangido ao assistir ao filme infantil, a audiência busca refúgio em universos familiares. A nostalgia de Hofer era espacial; a nossa, e a de Nolan, parece ser temporal. Buscamos em Ítaca, Eternia, na casa dos McCallister ou até mesmo em referências como os figurinos de Xuxa nos anos 80, um porto seguro em tempos de incerteza.
O Deslocamento no Tempo e o Medo do Presente
A crônica propõe que a nostalgia contemporânea é um sintoma de estarmos ‘deslocados no tempo em que vivemos’. Diante de um presente complexo e um futuro incerto, recorremos a narrativas e estéticas do passado. A obra de Nolan, ao misturar a tragédia de Ulisses com a responsabilidade da bomba atômica, e a própria busca por reviver personagens icônicos, evidenciariam essa tendência. É um movimento em busca de mapas conhecidos, em contraste com a imprevisibilidade do agora, culminando na recente estreia de um novo filme do Homem-Aranha, que se insere nesse mesmo fenômeno.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br