Necromancia Digital: Por Que a Recriação de Pessoas Mortas com IA Divide Opiniões e Levanta Debates Éticos e Jurídicos?

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Necromancia Digital: Por Que a Recriação de Pessoas Mortas com IA Divide Opiniões e Levanta Debates Éticos e Jurídicos?

A prática de usar inteligência artificial para ‘reviver’ falecidos em vídeos e áudios viraliza, mas esbarra em dilemas profundos sobre consentimento, luto e os direitos de imagem no pós-vida.

A ascensão da inteligência artificial (IA) trouxe consigo uma prática fascinante e, ao mesmo tempo, controversa: a Necromancia Digital. Este termo descreve a recriação da aparência ou da voz de pessoas falecidas, utilizando ferramentas de IA que se tornaram acessíveis ao público. Enquanto vídeos de celebridades mortas em situações cotidianas ou em um suposto ‘pós-vida’ se espalham pelas redes sociais, a discussão sobre os limites éticos, o impacto no processo de luto e as implicações legais se intensifica.

O Fenômeno da Necromancia Digital e a IA

Com o avanço e a democratização dos geradores de imagens e vídeos baseados em IA, a capacidade de ‘reviver’ figuras do passado nunca foi tão real. A partir de uma única foto, é possível criar arquivos que reproduzem fielmente a fisionomia de uma pessoa. No caso dos vídeos, a experiência se torna ainda mais imersiva com ferramentas que clonam vozes a partir de pequenos trechos de áudio. Exemplos como o ator Sam Neill ‘encontrando dinossauros no paraíso’ após a morte de um colega, ou celebridades em tarefas banais, ilustram a facilidade com que esses conteúdos são produzidos e viralizam.

No entanto, a maioria dessas criações carece de consentimento da família, levantando uma questão central: quem detém os direitos sobre a imagem e a aparência de uma pessoa após a morte? Embora os casos mais notórios envolvam figuras públicas, a tecnologia permite estender a prática a qualquer indivíduo com presença digital, tornando o debate ainda mais urgente.

Os Limites Éticos e o Impacto no Luto

A reação à necromancia digital varia amplamente, mas a prática em si já confronta limites éticos importantes. Victor Hugo Lopes, coordenador do Curso Superior de Tecnologia em IA do UniSenac (RS), ressalta à reportagem do Canaltech que o consentimento é um ponto crucial. Para ele, as empresas desenvolvedoras de IA devem implementar regras e mecanismos de segurança para definir esses limites.

Além das questões de privacidade e uso indevido, há um impacto significativo no processo de luto. A psicóloga Cristiane Belmonte alerta para o risco de transformar a tecnologia em um mecanismo de negação. Ao simular uma realidade que não existe, a necromancia digital pode impedir que indivíduos processem a perda, prolongando uma fase natural de negação que, se estendida, pode ser prejudicial ao bem-estar psicológico.

Mortos Viram Negócio: Casos Emblemáticos e Riscos

A ‘recriação’ de falecidos já transcendeu o ambiente viral e se transformou em negócio. Casos como o comercial da cantora Elis Regina em 2023, ou o acordo da ElevenLabs para recriar a voz de Stan Lee, demonstram que, com o consentimento dos detentores de direitos, a prática pode ser comercializada. Além disso, surgem empresas especializadas em ‘deathbots’ ou ‘griefbots’, chatbots que simulam a comunicação com pessoas falecidas.

Essa comercialização e o fácil acesso à IA, contudo, abrem portas para práticas maliciosas. Victor Hugo Lopes adverte que a tecnologia pode ser utilizada para fraudes, golpes ou manipulações, exacerbando os riscos de uso indevido da imagem e da memória dos falecidos.

O Impasse Jurídico: De Quem é a Imagem Após a Morte?

A complexidade da necromancia digital é agravada por um impasse jurídico global. As leis sobre o uso da imagem de uma pessoa após a morte variam consideravelmente entre os países. No Brasil, o advogado Pedro Amorim de Souza, Mestre e Doutorando em Teoria do Direito pela UFRJ, esclarece que a legislação nacional determina que apenas a própria pessoa falecida detém os direitos sobre o uso de sua aparência após a morte. Isso cria um vácuo legal e uma dependência da interpretação e da evolução das normas.

O uso da imagem de alguém sem consentimento, mesmo em vida, já é problemático. Com a morte, a situação se torna ainda mais delicada e exige uma reflexão profunda sobre os limites da inovação tecnológica e o respeito à memória e à dignidade humana. A crescente dependência da tecnologia já inspira movimentos de ‘detox de IA’, sinalizando uma busca por reequilibrar a relação humana com essas ferramentas poderosas.

Fonte: canaltech.com.br

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