A controvérsia em torno da escalação de Lupita Nyong’o para interpretar Helena de Troia e Clitemnestra no novo filme “A Odisseia” de Christopher Nolan tem gerado intensos debates, especialmente nas redes sociais. O professor e youtuber Thiago Braga, criador dos canais “Brasão de Armas” e “Impérios AD”, posicionou-se de forma contundente contra as alterações propostas no filme, argumentando que elas representam uma descaracterização da obra original de Homero e uma falta de respeito à cultura grega antiga.
A principal crítica de Braga reside na escalação de Lupita Nyong’o, uma atriz afrodescendente, para papéis que, segundo ele, sempre foram retratados como de pele clara e fenótipo europeu em fontes primárias, iconografia e textos históricos. Para o professor, a escolha de Nolan é um exemplo claro de “sinalização de virtude” voltada para a “cultura woke” e uma tentativa de obter reconhecimento em premiações como o Oscar, que valorizam a inclusividade.
A defesa de “alterações flagrantes”
Enquanto alguns defensores de Nolan argumentam que a Grécia Antiga teria uma visão mais flexível sobre a etnia dos deuses e heróis, chegando a sugerir que os gregos admiravam pessoas negras e que a própria Grécia seria “negra”, Braga refuta veementemente essas alegações. Em seus vídeos, ele analisa fontes primárias gregas, iconografia e estudos especializados para desmistificar essa interpretação.
“Os sinalizadores de virtude fofinhos resolveram defender Nolan usando a história e a cultura grega para validar a escolha de Lupita para ser Helena de Troia: que, para os gregos, seria a coisa mais normal do mundo Helena ser negra, porque os gregos admiravam os negros, que os deuses eram negros, que a Grécia era negra e que os gregos eram negros”, critica Braga, que prossegue: “Eu fiz esses três vídeos no meu canal Brasão de Armas analisando as fontes primárias gregas, iconografia, estudos especializados sobre o assunto e análise de DNA dos gregos antigos, para colocar um ponto final nessa falsificação toda.”
Odisseia: Ficção ou Legado Cultural?
Um ponto central da argumentação de Braga é a natureza da Odisseia. Ele contesta a visão de que a obra seja meramente uma “ficção” que pode ser alterada à vontade por qualquer artista. Para ele, a Odisseia, embora ficcional para o público contemporâneo, foi concebida como parte da história e da cultura grega, sendo reverenciada e transmitida por milênios.
“Quando Homero escreveu a Odisseia, ele não escreveu pensando nos moderninhos do século XXI; ele escreveu pensando no povo e na cultura da época dele”, afirma o professor. Ele ressalta que os mais de 12 mil versos da obra eram memorizados nas escolas gregas e que artistas retratavam seus heróis e heroínas de acordo com o seu próprio povo e sua própria realidade fenotípica e étnica. Portanto, para Braga, alterar essas características é um “abuso” e uma “falsificação da criação original”.
Respeito pela obra e seu povo
Braga argumenta que, se a Odisseia é uma obra tão respeitada e reverenciada que sobreviveu por milênios mantendo suas características básicas, é um contrassenso alterá-la drasticamente. Ele questiona por que, se a obra pode ser modificada livremente, tradutores não alteram passagens como “Helena de braços brancos” para “Helena de braços negros”. A consistência histórica na representação de Helena como branca em diversas manifestações artísticas ao longo dos séculos, segundo ele, demonstra um respeito intrínseco à obra e ao povo que a criou.
“Se eles querem tratar a Odisseia como mera ficção, ela é uma ficção que outro povo escreveu: a história cultural de um povo que reverenciou aquelas pessoas por milênios deve ser respeitada e retratada como eles criaram! Então, NÃO… Lupita Nyong’o NÃO pode — e NÃO deve — ser Helena de Troia em A Odisseia!”, conclui Braga, comparando a situação a um potencial filme sobre mitologias africanas onde personagens icônicas fossem interpretadas por atrizes que destoassem radicalmente das representações culturais estabelecidas.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br