A Guerra Irã-Iraque: Um Legado de Doutrina Militar
O longo e sangrento conflito entre Irã e Iraque, ocorrido entre 1980 e 1988, deixou cicatrizes profundas na geopolítica militar do Irã. Considerada a oitava guerra mais letal do século XX, a experiência traumática forçou Teerã a reestruturar suas Forças Armadas. A dependência de um poderio militar convencional, outrora sustentado por equipamentos ocidentais, deu lugar a uma doutrina focada no desenvolvimento de mísseis balísticos, drones de baixo custo e na formação de redes de milícias aliadas. Essa mudança estratégica é a chave para entender as atuais tensões no Oriente Médio.
A Invasão Iraquiana e a Nova Realidade das Trincheiras
Em setembro de 1980, o Iraque, sob o comando de Saddam Hussein, invadiu o Irã, explorando a instabilidade pós-Revolução Islâmica. O que se esperava ser uma vitória rápida transformou-se em um impasse brutal, com combates que remetiam à Primeira Guerra Mundial, marcados por quilômetros de trincheiras, duelos de artilharia e o uso de armas químicas por parte do Iraque. Isolado e sem acesso ao mercado global de armas, o Irã enfrentou a falência de seu exército regular (Artesh), que dependia de suprimentos e tecnologia americana da era do Xá. A escassez de peças forçou o desmonte de equipamentos funcionais para manter uma frota mínima em operação.
Ascensão da Guarda Revolucionária e a Guerra Assimétrica
Em resposta à ineficácia do exército convencional e às sanções internacionais, o regime iraniano centralizou investimentos no recém-criado Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Essa organização paramilitar assumiu o protagonismo militar e estabeleceu as bases da estratégia que perdura até hoje: a guerra assimétrica. O trauma da vulnerabilidade aérea nos anos 80 impulsionou o desenvolvimento do maior arsenal de mísseis balísticos do Oriente Médio e, mais recentemente, a produção em massa de Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs). A tática atual visa o esgotamento financeiro e logístico dos adversários, como Estados Unidos, Israel e as monarquias do Golfo, forçando-os a um confronto desproporcional em termos de custo de defesa e interceptação.
O Legado da Inércia Internacional e a Resiliência Iraniana
A experiência de combater em isolamento total gerou um profundo ceticismo no Irã em relação ao direito internacional e às Nações Unidas. Durante a guerra, a comunidade global, receosa com a expansão da revolução xiita, forneceu apoio a Bagdá. O Conselho de Segurança da ONU demonstrou hesitação em impor sanções ao Iraque, mesmo diante do uso comprovado de armas químicas. O fim do conflito, em 1988, através da Resolução 598, que restabeleceu as fronteiras pré-guerra sem vencedores claros ou reparações, reforçou a lição para os estrategistas iranianos: a sobrevivência do regime depende de sua capacidade autônoma de infligir danos inaceitáveis aos adversários. A atual postura de Teerã, com foco em armas descartáveis e assimetria implacável, é uma aplicação rigorosa dessa doutrina, concebida nas trincheiras e executada por veteranos que vivenciaram o conflito.
Fonte: jovempan.com.br
