A Realidade de Perea: Desilusão e Ausência Estatal
O agricultor Perea, após tentar uma vida longe do cultivo da folha de coca, viu-se forçado a retornar à plantação. A promessa de apoio financeiro e assistência técnica, parte do Programa Nacional Integral de Substituição de Cultivos Ilícitos (PNIS) lançado em 2017, nunca se concretizou plenamente. A falta de infraestrutura, como estradas precárias e inundações recorrentes, dificultava a venda de culturas legais como mandioca e banana. “É uma tragédia”, desabafa Perea, “Mas, quando você tem filhos e não tem trabalho, que escolha lhe resta?” A ausência do Estado nas áreas rurais é um tema recorrente entre os produtores.
O PNIS e Suas Falhas: Um Programa Ambicioso com Execução Comprometida
Criado após o acordo de paz de 2016 com as FARC, o PNIS visava erradicar cerca de 100 mil hectares de coca, oferecendo em troca mais de R$ 57 mil em pagamentos ao longo de dois anos, além de suporte técnico. Inicialmente, a iniciativa mostrou resultados em algumas regiões, com a substituição da coca por limoeiros e outras culturas. No entanto, a descontinuidade política sob o governo de Iván Duque e a falta de coordenação entre órgãos governamentais levaram a atrasos significativos nos pagamentos e na entrega de assistência. Elena Hernández, que aderiu ao programa em 2017, relata sentir-se “maltratada” e “abandonada”.
Fatores que Sustentam o Cultivo de Coca: Demanda Global e Insegurança
Apesar dos esforços de substituição, o cultivo de coca na Colômbia atingiu um recorde de 250 mil hectares. Especialistas apontam a persistente e crescente demanda internacional por cocaína, especialmente nos EUA e Europa, como um dos principais motores. Michael Weintraub, pesquisador, afirma que “a Colômbia continuará cultivando coca em um futuro próximo”. Além disso, o cenário de segurança “frágil” no país, com grupos armados ocupando o vácuo deixado pela desmobilização de guerrilhas, dificulta a implementação eficaz de programas sociais e a garantia de segurança para os agricultores que buscam alternativas legais.
Renhacemos: A Nova Estratégia para Corrigir Falhas e Diversificar Economias
Em resposta às falhas do PNIS, o governo atual lançou o programa RenHacemos. A nova estratégia busca não apenas oferecer apoio financeiro, mas também diversificar as economias locais de forma mais abrangente. Isso inclui melhorias em infraestrutura viária, acesso à educação, conectividade digital e condições de moradia. Gloria Miranda, diretora do órgão responsável pela substituição, explica que o objetivo é “substituir não apenas a planta de coca, mas toda a economia que a cerca”. Contudo, a desconfiança dos agricultores, como Perea, e o ceticismo de analistas sobre a capacidade de gerar mudanças duradouras permanecem como desafios significativos.
Fonte: g1.globo.com
