Elogio a Helena – sobre a escolha de Nolan para a “Odisseia”

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    "title": "A Escolha de Lupita Nyong'o para Helena de Troia: Um Apagamento Cultural ou Uma Nova Perspectiva?",
    "subtitle": "O professor Francisco Razzo critica a escalação da atriz queniana para o papel da icônica rainha grega em 'Odisseia' de Nolan, argumentando que descaracteriza o mito original e apaga a herança cultural.",
    "content_html": "<h3>Um Vínculo com o Mito e a Crítica à Adaptação</h3>n<p>O professor de Filosofia, Francisco Razzo, expressa sua apreensão em relação à escalação da atriz queniana Lupita Nyong'o para interpretar Helena de Troia no próximo filme de Christopher Nolan sobre a Odisseia. Razzo, que confessa ter aprendido a ler em voz alta com Homero aos 16 anos e mantém um apreço pessoal pela obra, critica a escolha, argumentando que a atriz, apesar de reconhecidamente talentosa, não possui o vínculo intrínseco com o mito que Homero narrou: uma rainha grega, descrita como de beleza luminosa e divina, filha de Zeus e Leda.</p>nn<h3>A Brancura como Categoria Teológica na Grécia Antiga</h3>n<p>O ponto central da crítica de Razzo reside na interpretação do conceito de beleza na Grécia Antiga, conforme retratado por Homero. Ele explica que a palavra grega 'leukós', traduzida como 'branco', carrega em si a conotação de 'luminoso', uma característica atribuída aos deuses. A brancura da pele, como em 'leukōlenos' (de braços brancos), não seria uma questão racial, mas sim um marcador de aristocracia e divindade, indicando uma pele que não se queima ao sol por não realizar trabalho manual, um esplendor que distingue os seres celestiais. Para Razzo, a escolha de Nolan, ao substituir essa representação, apaga um código cultural profundo que imaginava o divino encarnado.</p>nn<h3>O Mito Plástico e o Risco do Apagamento</h3>n<p>Embora reconheça que mitos são passíveis de reescrita ao longo do tempo, Razzo argumenta que as reinterpretações históricas foram feitas a partir de dentro da própria tradição, em diálogo com Homero. Ele vê a decisão de Nolan como uma imposição externa, uma desconsideração da gramática do esplendor que rege a narrativa homérica. Para ilustrar seu ponto, Razzo propõe um exercício de inversão: a escandalosa escalação de uma atriz dinamarquesa para interpretar Oxum, a orixá iorubá da beleza, exemplificaria um desrespeito semelhante ao que ele percebe na abordagem de Nolan em relação à cultura grega. Ele lamenta que a Grécia, ao contrário da África em seu exemplo, seja vista como uma cultura que pode ser reescrita sem licença, um apagamento duplo que ignora tanto a Helena grega quanto a rica mitologia africana que ainda aguarda sua representação cinematográfica.</p>nn<h3>A Sensação de um Formulário Preenchido</h3>n<p>Concluindo, Razzo antecipa que assistirá ao filme por admiração a Christopher Nolan, mas espera sair da sala de cinema com a sensação de ter testemunhado um homem talentoso preenchendo um formulário com precisão. Ele compara a escolha de Nolan a um ato de "domesticamento" pelo departamento de marketing e pelas exigências ideológicas, que se vendem como reparação, mas resultam em apagamento. A força e a postura de Lupita Nyong'o, qualidades evidentes na atriz, não seriam suficientes para suprir a ausência do vínculo com o mito e a descaracterização de um código cultural milenar. Para Razzo, Nolan, em sua decisão, tornou-se um funcionário, e não um dialogador com a essência do mito homérico.</p>"
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    Fonte: www.gazetadopovo.com.br

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