Da Ficha de Papel ao Login Digital: A Burocracia Persiste na Hotelaria Brasileira

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A Evolução da Burocracia na Hotelaria

A ideia de que o Brasil contemporâneo rompeu completamente com as práticas administrativas do período da ditadura militar (1964-1988) no que tange à relação entre Estado e setor privado é, para muitos, uma percepção superficial. Embora a retórica política tenha evoluído, a prática administrativa, especialmente na hotelaria, revela uma notável continuidade. Um exemplo emblemático é a Ficha Nacional de Registro de Hóspedes (FNRH).

Durante o regime militar, a FNRH se consolidou como um instrumento obrigatório para estabelecimentos de hospedagem. Antes de recepcionar um hóspede, hotéis eram compelidos a coletar informações detalhadas como nome completo, documento de identidade, origem, profissão e motivo da viagem. O empresário, que já investia capital, gerava empregos e pagava impostos, assumia também o papel de agente coletor de dados para o Estado.

Digitalização: Uma Nova Embalagem para a Mesma Essência

Décadas após a promulgação de uma nova Constituição e com a promessa de modernização institucional, muitos esperavam uma revisão desse modelo. No entanto, o que se observou foi uma mera mudança de formato. A antiga ficha em papel deu lugar a cadastros digitais, integrações sistêmicas, transmissões eletrônicas e autenticações via Gov.br. O balcão com prancheta foi substituído por telas com senhas, mas a essência da obrigação permaneceu.

O ponto central da discussão, segundo Mario Cezar Nogales, consultor especializado em hotelaria, não reside na superioridade da tecnologia sobre o papel, mas na persistência da lógica de tutela estatal sobre a operação privada. A hotelaria, cujo objetivo primordial é oferecer hospedagem, gerar empregos e lucro, vê-se constantemente sobrecarregada com obrigações acessórias que a transformam em uma extensão burocrática do poder público.

Continuidade Histórica e o Custo para o Empresário

Nogales aponta para uma continuidade silenciosa entre modelos políticos discursivamente opostos, mas com semelhanças na prática estatal: a desconfiança na autonomia produtiva. Enquanto no passado o controle era justificado por segurança nacional, hoje ele se apresenta sob o verniz de termos como governança, integração e compliance. A questão fundamental que permanece para o empresário é: quem arca com os custos operacionais dessa exigência?

Na vasta maioria dos casos, a conta recai sobre o hotel, especialmente sobre os empreendimentos independentes e familiares. Esses negócios precisam, simultaneamente, recepcionar hóspedes e gerenciar exigências que pouco contribuem para o aumento de suas vendas. A mudança de método – do papel para o digital – não alterou a mentalidade subjacente, que continua a impor obrigações sem um retorno claro de eficiência para o negócio.

A Necessidade de um Modelo Colaborativo

Embora o registro de hóspedes para fins de segurança pública e estatística setorial seja legítimo, o desenho da relação entre Estado e iniciativa privada é o ponto nevrálgico. Um modelo moderno, segundo Nogales, deveria basear-se em três princípios: transparência na finalidade das informações, simplificação dos processos e retorno de valor para o setor. Se o hotel fornece dados, o setor deveria receber em troca inteligência de mercado, simplificação regulatória e benefícios concretos.

A história da FNRH, da ficha de papel ao login digital, reflete um traço histórico brasileiro: a preservação da estrutura sob a roupagem de ferramentas modernas. O autoritarismo de ontem utilizava formulários; o intervencionismo contemporâneo prefere dashboards. No fim das contas, o recepcionista apenas trocou a caneta pela senha, mas a lógica de controle estatal permanece como um desafio constante para a hotelaria nacional.

Fonte: revistahoteis.com.br

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