Todos temos aquele jogo que amamos e que, inexplicavelmente, nunca ganhou uma sequência. Embora a indústria de games viva um momento de forte investimento em remakes, remasterizações e continuações, muitas propriedades intelectuais antigas e de grande sucesso acabaram esquecidas na gaveta. Seja pela busca por vendas irreais ou por se tornarem obsoletas para as grandes empresas, esses títulos deixaram um legado de carinho, mas também de oportunidades perdidas.
Hoje, revisitamos seis jogos excelentes do início dos anos 2000, que cativaram milhões de jogadores e, ainda assim, tiveram suas sequências canceladas. É um mergulho nas razões complexas que levaram esses projetos a nunca verem a luz do dia, revelando os bastidores de uma indústria cheia de potencial não concretizado.
BLACK e The Simpsons: Hit & Run: Onde o Sucesso não Garantiu a Continuação
Lançado em 2006, BLACK é um dos FPS mais queridos da era PlayStation 2 e Xbox. Desenvolvido pela Criterion Games e publicado pela Electronic Arts, destacava-se pela destrutibilidade dos cenários, jogabilidade fluida e trechos cinematográficos impressionantes para a época. Apesar do elogio unânime, uma sequência direta nunca se materializou. O cocriador Stuart Black revelou que divergências com a EA engavetaram o projeto. A Criterion, por sua vez, foi realocada para a série Need for Speed e, mais tarde, para Battlefield. Parte da equipe migrou para a Codemasters, onde tentou criar um sucessor espiritual, Bodycount, que, infelizmente, não alcançou o sucesso esperado.
Conhecido carinhosamente como o “GTA dos Simpsons”, The Simpsons: Hit & Run foi um fenômeno no início dos anos 2000. Lançado em 2003 pela Radical Entertainment para PC e consoles da época, o jogo de ação e aventura combinava o humor e o universo dos Simpsons com a liberdade de um mundo aberto, lembrando o sucesso estrondoso de GTA III. O título foi um sucesso de vendas, e a licença permitiria mais quatro jogos. Contudo, após a aquisição da Radical pela Vivendi (e depois Activision) em 2005, a desenvolvedora focou em outros projetos, como Crash Bandicoot. Um protótipo de The Simpsons: Hit & Run 2 chegou a ser iniciado, mas o projeto foi descartado pela Vivendi, e as licenças dos Simpsons acabaram nas mãos da EA.
FEZ e Dante’s Inferno: De Polêmicas a Vendas que Não Agradaram
FEZ, um dos grandes destaques do programa Xbox Live Arcade, surgiu como um inovador jogo de quebra-cabeças que misturava 2D e 3D, repleto de conceitos matemáticos e um carisma singular. Desenvolvido pelo controverso Phil Fish, o jogo da Polytron foi um sucesso no Xbox 360, garantindo recursos para portá-lo para outras plataformas. O anúncio surpreendente de FEZ II na E3 de 2013 gerou grande expectativa, mas um mês depois, Phil Fish cancelou publicamente a sequência. Uma discussão acalorada no X com o jornalista Marcus Beer foi o estopim para Fish anunciar sua saída da indústria, citando a pressão de criar uma continuação de sucesso, mesmo com o jogo ainda em fase inicial de produção.
Dante’s Inferno é um hack and slash bem lembrado, especialmente pelos jogadores de Xbox 360 que buscavam uma alternativa a God of War. Desenvolvido pela falida Visceral Games (o mesmo estúdio de Dead Space), o jogo adaptava a obra literária “A Divina Comédia” em uma jornada pelos nove círculos do inferno para resgatar Beatrice. Apesar do carinho dos jogadores, a Electronic Arts não ficou satisfeita com as vendas. Uma sequência, Dante’s Purgatory, baseada na segunda parte da obra de Dante Alighieri, estava em planejamento, com concept arts, screenshots e um roteiro de 240 páginas. No entanto, a EA barrou a continuação, considerando as vendas de mais de 1 milhão de unidades um “fracasso”, e desde então, não houve mais sinais do retorno de Dante aos games.
Bully e Sleeping Dogs: Ambição, Controvérsia e o Peso das Expectativas
A Rockstar Games, conhecida hoje por Red Dead Redemption e GTA, já teve um catálogo mais diverso. Bully, lançado nos anos 2000, levava o humor ácido e a crítica social da produtora para a Bullworth Academy, abordando temas controversos da vida escolar como violência, bullying e questões LGBT, o que gerou muitas discussões e até proibição no Brasil. Muitos acreditam que a acidez da obra não se encaixaria bem na realidade atual, contribuindo para o não investimento da Rockstar na IP. A sequência, Bully 2, foi cancelada por múltiplos fatores: a ambição de criar um jogo muito maior e mais livre exigiria um alto engajamento da equipe (crunch), e muitos desenvolvedores foram realocados para projetos como Red Dead Redemption e Max Payne 3. Quando foi definitivamente congelado em 2010, o jogo já contava com oito horas de conteúdo jogável.
Da série de jogos que venderam bem, mas não atenderam às expectativas das empresas, Sleeping Dogs se tornou um clássico cult. O jogo adotava um estilo similar a GTA, mas com a perspectiva de um policial infiltrado em Hong Kong, mesclando dilemas de lealdade com um combate corpo a corpo profundo, que lembrava clássicos beat ‘em up. Infelizmente, vender dois milhões de cópias não foi suficiente para a Square Enix na época. Insatisfeita com os números, a publisher pediu à desenvolvedora United Front que abandonasse os conceitos iniciais de Sleeping Dogs 2 para trabalhar em um jogo multiplayer online chamado Triad Wars, que fracassou completamente. Algum tempo depois, a United Front fechou as portas.
Esses seis exemplos ilustram a complexidade da indústria de games, onde o sucesso de crítica e público nem sempre garante uma sequência. Divergências criativas, expectativas de vendas irreais e realocação de equipes são apenas alguns dos motivos que levam excelentes projetos a serem engavetados, deixando para trás um legado de jogos memoráveis e o questionamento do que poderia ter sido.
Fonte: canaltech.com.br
