Christopher Nolan, Xuxa e He-Man: A Nostalgia como Doença e o Medo do Presente

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    A Desilusão Nostálgica no Cinema e na TV

    A tentativa de reviver a infância com o filme do He-Man se mostrou uma experiência decepcionante, gerando um constrangimento comparável ao de ver Xuxa em figurinos dos anos 80. Essa sensação de desapontamento com o passado, quando ele tenta se reinventar, é um prelúdio para uma reflexão mais profunda sobre a natureza da nostalgia. O eterno Kevin de ‘Esqueceram de Mim’, Macaulay Culkin, cogitando um retorno em um papel de pai ausente, apenas reforça a ideia de que o presente muitas vezes não atende às expectativas criadas pelas memórias. Talvez Christopher Nolan, antes de conceber sua ‘Odisseia’, tenha se deparado com essas mesmas desilusões, tanto no cinema quanto em outros espetáculos que celebram o passado.

    Nostalgia: Da Doença à Ferramenta Narrativa

    A palavra ‘nostalgia’, contrariando sua sonoridade grega, foi cunhada em 1688 pelo médico suíço Johannes Hofer. Longe de ser um sentimento afetuoso, era um diagnóstico médico para soldados mercenários que sofriam com a saudade de casa, apresentando sintomas físicos e psicológicos incapacitantes. Hofer a definiu como uma ‘doença’ causada pela incapacidade de retornar ao lugar de origem. Essa concepção original da nostalgia como um deslocamento doloroso, uma ‘dor de retorno’ (nostos + algos), contrasta com a forma como a utilizamos hoje.

    Nolan e a ‘Nostalgia’ como Medo do Presente

    O filme de Nolan, ao retratar Ulisses não como um herói em busca de retorno (nostos), mas sim imerso em culpa e trauma pós-Guerra de Troia, transforma a narrativa em uma exploração da nostalgia em seu sentido mais sombrio. Ao equiparar o Cavalo de Troia à bomba atômica, o cineasta sugere que a culpa e os traumas do passado têm consequências civilizacionais devastadoras. Essa abordagem, segundo o autor, revela um profundo temor de Nolan com o presente e uma profecia de um futuro incerto, onde a busca por refúgios do passado se torna um sintoma de desorientação temporal.

    O Deslocamento Temporal e os Mapas do Passado

    Enquanto a nostalgia original de Hofer era de quem estava fisicamente deslocado e sabia para onde voltar, a nostalgia contemporânea, tanto a de Nolan quanto a nossa, é de quem se sente deslocado no tempo. Diante da incerteza do presente, recorremos a Ítaca, Eternia, à casa dos McCallister ou à nave da Xuxa – locais e tempos que oferecem a ilusão de um mapa seguro. A estreia de novos filmes do Homem-Aranha, por exemplo, insere-se nessa mesma lógica, oferecendo mais um ponto de fuga para um presente percebido como instável e assustador.

    Fonte: www.gazetadopovo.com.br

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