Centenário de Milton Santos: O Geógrafo Negro que Revelou as Desigualdades do Brasil e do Mundo

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A Obra Visionária de Milton Santos em Destaque

Nascido em 3 de maio de 1926, Milton Santos completaria 100 anos em 2026. Sua trajetória como geógrafo negro, nascido em Brotas de Macaúbas, na Bahia, o consolidou como um dos mais importantes pensadores do Brasil e do mundo. Sua obra, marcada pela crítica às desigualdades socioeconômicas e pela profunda compreensão do espaço geográfico como resultado de decisões políticas e econômicas, permanece incrivelmente relevante.

Os Dois Circuitos da Economia Urbana

Uma das teorias mais influentes de Milton Santos é a divisão da economia urbana em dois circuitos: o superior e o inferior. O circuito superior é caracterizado por grandes empresas, alta tecnologia e capital concentrado. Em contrapartida, o circuito inferior é formado por pequenos comércios e serviços, que, apesar de terem menor acesso a recursos, demonstram uma notável capacidade de adaptação às necessidades da população, especialmente em periferias urbanas. Essa dualidade explica como estabelecimentos populares, como mercadinhos e feiras, coexistem e atendem às demandas de comunidades com menor poder aquisitivo, um fenômeno observado em cidades como São Luís, no Maranhão, e que se estende a contextos globais.

Desigualdades e a Geografia como Ferramenta de Análise

Milton Santos revolucionou a forma de enxergar o espaço. Para ele, o território não é um mero palco, mas sim o reflexo direto de escolhas políticas e econômicas. A distribuição desigual de infraestrutura, como saneamento básico e acesso à internet, ou a concentração de investimentos em determinadas áreas, são manifestações de relações de poder. Sua obra demonstra como processos como a industrialização e a urbanização, impulsionados pelo avanço do capitalismo, geram desigualdades e afetam economias locais, beneficiando seletivamente certos grupos sociais. O conceito de “meio técnico-científico-informacional” descreve como a tecnologia e a infraestrutura moldam o território, criando um contraste entre regiões altamente conectadas e outras à margem desse desenvolvimento.

Racismo Estrutural e a Luta por Legitimidade

Como intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro da academia. Apesar de sua obra não ter a negritude como tema central, ela oferece ferramentas essenciais para a análise das questões raciais e das desigualdades. Santos relatava que, mesmo como professor universitário, vivenciou experiências de racismo e que negros precisavam de um esforço maior para que seu trabalho fosse legitimado. Sua postura, no entanto, nunca se baseou na vitimização, mas sim na construção de uma produção intelectual crítica e transformadora.

Um Legado de Esperança e Resistência

Apesar de seus diagnósticos críticos, Milton Santos também apontava caminhos para a transformação social. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que acentuam as desigualdades poderiam ser apropriadas por comunidades para criar alternativas econômicas e sociais. Iniciativas comunitárias, o uso de tecnologia em periferias e formas cooperativas de organização são, segundo o autor, manifestações de resistência e reinvenção do território. Sua obra nos convida a ir além da teoria, a compreender o cotidiano das pessoas e a reconhecer a capacidade das periferias urbanas de produzir outras formas de existência.

Celebrações e Reconhecimento

O centenário de Milton Santos é marcado por uma série de eventos em todo o país, em formatos híbridos, reunindo pesquisadores, ativistas e o público em geral para debater seu legado. Seminários na USP e no Sesc, além de eventos na Universidade Federal do Tocantins, celebram a atualidade de seu pensamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também prestou homenagem ao geógrafo, destacando sua importância para a compreensão das desigualdades globais e do potencial transformador das periferias, ressaltando que sua obra é “extremamente atual e necessária” nos tempos de hoje.

Fonte: jovempan.com.br

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