Viver sob alerta: A realidade de brasileiros nos países bálticos
Na Estônia, Letônia e Lituânia, brasileiros que vivem na região relatam a convivência com testes de sirenes, abrigos e planos de emergência. Essa preparação civil intensificada pelos governos locais reflete a preocupação com potenciais ações militares da Rússia, especialmente após a invasão da Ucrânia em 2022. Camila Conti, 31 anos, que mora na Estônia há cerca de dois anos, descreve a sensação de desconforto durante os testes de sirenes: “É uma sensação muito ruim. Mesmo sabendo que é apenas um teste, quando a sirene começa a tocar, você sente um desconforto muito grande. Depois que acaba, fica pensando que, se existe todo esse sistema de testes, existe um motivo para ele existir”.
Invasão da Ucrânia reacende preocupações e acelera gastos militares
A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 trouxe de volta preocupações de segurança para os países bálticos, que historicamente estiveram sob influência russa. Estônia, Letônia e Lituânia recuperaram a independência em 1991 e ingressaram na Otan em 2004 buscando garantias contra essa vulnerabilidade. Diante do cenário atual, os três países aceleraram os gastos militares. A Estônia prevê destinar 5,4% do PIB à defesa em 2026, a Letônia cerca de 4,7%, e a Lituânia já ultrapassa a marca de 5%, superando a nova meta da Otan de 5% do PIB até 2035. O professor de relações internacionais Günther Richter Mros explica que a invasão ucraniana reforçou a memória histórica da região e que a defesa militar e a preparação da sociedade são vistas como partes integrantes da política de segurança.
Comunidade brasileira nos Bálticos: Adaptação e tranquilidade
Apesar do clima de alerta, a comunidade brasileira nos Bálticos, estimada em cerca de 1,2 mil pessoas, não demonstra um medo constante no dia a dia. A maior parte reside na Estônia (900), seguida pela Letônia (200) e Lituânia (153). Ana Meis, na Lituânia, afirma que a proximidade com a Rússia nunca foi um impeditivo, e que a vida segue normalmente, transmitindo tranquilidade. Iago Bresciani, na Estônia, prefere não se preocupar excessivamente, adotando o lema de “aproveitar a vida”. Ele relata que mesmo em Narva, cidade na fronteira com a Rússia, o clima é tranquilo e as pessoas vivem normalmente. Camila Conti, por sua vez, tem uma vida social ativa, mas pondera sobre a importância de ter um “plano B” em caso de emergência.
Governos intensificam preparação civil e envolvem a população
Enquanto a rotina dos brasileiros segue relativamente inalterada, os governos bálticos expandem seus investimentos em preparação civil. Na Lituânia, o número de abrigos foi dobrado em 2024, com planos de modernização e instalação de novas sirenes. A Letônia tornou a Defesa Nacional disciplina obrigatória no ensino médio e restabeleceu o serviço militar obrigatório, além de implementar um sistema de alertas por celular e orientar a população a se manter autônoma por 72 horas em caso de crise. Na Estônia, o sistema EE-ALARM combina sirenes, alertas por aplicativos e SMS, com testes nacionais frequentes e simulações de resposta a crises.
Defesa e juramento: O caso de um brasileiro na Letônia
Felipe Gabriel Xavier, que vive na Letônia há dez anos e se tornou nacionalmente conhecido ao jogar futebol, obteve o passaporte letão. Embora reforce que não há riscos iminentes e a vida siga normal, ele declara que defenderia o país em caso de invasão. “Fiz um juramento, caso tenha guerra eu iria proteger a Letônia”, afirma, demonstrando o engajamento com a segurança do país que o acolheu.
Fonte: g1.globo.com
