A promessa de unir universos de jogos e outras mídias, como quadrinhos, filmes e séries, sempre gera grande expectativa. No entanto, a realidade dos jogos licenciados frequentemente esbarra em desafios complexos que podem minar seu sucesso e longevidade. Títulos que herdam parte de um universo já estabelecido enfrentam peculiaridades que os tornam, ironicamente, mais propensos ao fracasso em diversas frentes.
A polêmica da localização e o caso Marvel
O debate mais recente gira em torno de Marvel Tokon: Fighting Souls, que, assim como Marvel’s Spider-Man (2018) e suas sequências, manteve os nomes dos super-heróis e vilões em inglês, afastando parte da comunidade brasileira. Essa decisão, que se estende a títulos aguardados como Marvel’s Wolverine, choca-se com uma cultura de localização que existe no Brasil desde os anos 1940.
Apesar de compreensível do ponto de vista de marketing da Sony Interactive Entertainment (SIE) e Disney — que buscam padronização global para facilitar a medição de popularidade e o rastreamento de dados —, a escolha impacta diretamente a experiência dos jogadores que cresceram com a tradução dos nomes. Curiosamente, Marvel’s Guardians of the Galaxy (2021), da Square Enix, conseguiu superar essa barreira ao adotar a nomenclatura brasileira (‘Senhor das Estrelas’, ‘Guardiões da Galáxia’) dentro de sua narrativa, demonstrando que é possível conciliar as estratégias de marca com o respeito cultural.
O prazo de validade das licenças digitais
Os desafios dos jogos licenciados vão muito além da localização. Um dos maiores problemas reside na natureza temporária dos contratos de licenciamento. A Activision, por exemplo, teve de remover dezenas de jogos da Marvel de todas as lojas digitais quando seu contrato com a editora foi encerrado. Isso fez com que títulos aclamados como Marvel Ultimate Alliance (2016) e Deadpool (2015) se tornassem inacessíveis, apesar de não terem sido fracassos comerciais. Eles falharam em se manter na indústria.
Esse padrão se repete com outras franquias. Transformers: Devastation (2015), Godzilla (2015) e Teenage Mutant Ninja Turtles: Mutants in Manhattan (2016) são outros exemplos de obras que, embora tenham brilhado, carregam um prazo de validade imposto pelos acordos de licenciamento. No formato digital, onde um game deveria ser ‘eterno’, a expiração de licenças significa a remoção permanente do mercado.
A complexidade das trilhas sonoras e crossovers
Problemas com licenciamento não se restringem ao universo geek. Jogos musicais como Rock Band, Guitar Hero e Just Dance, que dependem de trilhas sonoras com músicas reais, enfrentam o constante desafio de lidar com artistas, bandas e gravadoras. A renovação desses contratos é cara e, se o volume de vendas não compensar os custos, a acessibilidade do jogo é comprometida.
Just Dance conseguiu sobreviver com uma estratégia de lançamentos anuais, que permite remover músicas antigas sem grande impacto. No entanto, mesmo essa tática tem seus limites, pois a falta de inovação pode dispersar o público. Além disso, a ideia de misturar universos em crossovers, como Mortal Kombat vs. DC Universe (2008) e Jump Force (2019), exige negociações complexas com múltiplas produtoras e marcas, impondo limites que afetam diretamente a longevidade digital desses títulos.
O alto custo e o destino selado
Em suma, jogos licenciados nascem com uma predisposição a enfrentar obstáculos que podem levar ao seu ‘fracasso’ em diferentes níveis. Seja pelo custo exorbitante de manter licenças e trilhas sonoras (que pode não compensar o retorno financeiro), seja pelas estratégias não convencionais impostas pelos detentores da marca, ou pela promessa de se tornarem inacessíveis com o tempo.
As interações entre os elementos licenciados são frequentemente caras. Músicas de abertura e encerramento de jogos baseados em animes, por exemplo, exigem acordos distintos dos vistos nas próprias obras originais, elevando os custos para os estúdios. Essa fragmentação de contratos pode, paradoxalmente, ser mais barata do que um único acordo abrangente para ambas as mídias.
Assim, ver muitos personagens de diferentes franquias ou músicas populares em um jogo é um sinal de que seu destino está, de certa forma, selado. Embora existam exceções, como GTA V, que gerou receita suficiente para lidar com esses problemas de forma singular, muitos outros, como a linha Forza Horizon, ou os próprios super-heróis e personagens de anime, são submetidos a uma série de normas que dificultam sua permanência e sucesso a longo prazo. Felizmente, algumas plataformas, como o Xbox, buscam criar sobrevida para jogos banidos das lojas digitais, oferecendo um pequeno alento a essa realidade complexa.
Fonte: canaltech.com.br
