Sigilo e Pressão Marcam Negociação Histórica
Um acordo petrolífero considerado “histórico” entre a Venezuela e os Estados Unidos, que permitirá a operação de campos de petróleo venezuelanos por empresas americanas, tem gerado um misto de esperança e apreensão no país sul-americano. O pacto, que prevê um investimento privado de US$ 100 bilhões para revitalizar a indústria petroleira venezuelana, detentora das maiores reservas comprovadas do mundo, é visto por alguns como um caminho para a recuperação econômica, mas levanta sérias dúvidas devido ao sigilo estatal e à pressão exercida por Washington.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, declarou que as vastas reservas do subsolo se transformarão em “felicidade social e econômica” para a população. Contudo, a negociação ocorre em um contexto de forte pressão dos EUA sobre o governo interino, o que alimenta preocupações entre simpatizantes do chavismo. “Não sabemos a quem isso vai favorecer, se à Venezuela ou a eles (Estados Unidos)”, comentou Jesús Salazar, um trabalhador de segurança privada.
Produção em Recuperação, Mas Longe do Pico
A produção de petróleo venezuelana apresentou um aumento de 29,8% entre janeiro e julho, atingindo 1,2 milhão de barris por dia. No entanto, especialistas alertam que a recuperação total aos patamares de produção do final do século passado, que superavam os 3 milhões de barris diários, só ocorrerá a longo prazo. O engenheiro Oswaldo Felizzola estima que o aumento significativo na produção não será perceptível antes de “três, quatro anos”.
Apesar das incertezas, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) reafirmou seu apoio ao acordo, destacando que ele prioriza os interesses nacionais e visa superar o impacto de anos de sanções econômicas. A abertura das indústrias de petróleo e mineração ao capital privado estrangeiro, promovida por Rodríguez, tem sido acompanhada pelo alívio das sanções petrolíferas americanas.
Esperança de Melhora em Meio à Pobreza
A expectativa é que o acordo acelere a recuperação econômica da Venezuela, que sofreu uma contração de 80% entre 2014 e 2021. Muitos venezuelanos, que lutam para sobreviver com um salário mínimo equivalente a cerca de US$ 0,16, depositam esperanças nas receitas geradas pelo petróleo para melhorar suas condições de vida. O custo da cesta básica de alimentos, estimado em US$ 730 mensais, está muito acima dos benefícios estatais recebidos por grande parte da população.
Carlos Baco, um funcionário público, expressa a esperança de que as receitas do petróleo impulsionem a economia. No entanto, ele relata que os efeitos positivos ainda não chegaram ao seu bolso, com o aumento contínuo do custo de vida. “Até o momento não se viu nada, o consumo e a comida mais cara (…) o dólar sobe e os produtos sobem, tudo sobe, o transporte, tudo. Isso aqui é impossível”, desabafou.
Dúvidas Sobre o Impacto Real do Acordo
A falta de detalhes sobre os termos financeiros do acordo, além das projeções de receitas tributárias, dificulta a mensuração de seu impacto real. Analistas como Elías Ferrer veem o investimento como uma notícia positiva, mesmo que as condições possam ser questionadas. “Sem dúvida, isso é melhor do que antes, porque antes aquele petróleo não estava sendo explorado”, afirmou.
A advogada Dolores Dobarro, ex-vice-ministra venezuelana da Energia, ressalta que a implementação correta do acordo será crucial. “Se tudo for feito corretamente (…) será uma grande oportunidade para a Venezuela ver seu setor petrolífero ressurgir”, opinou. A controvérsia nas redes sociais reflete a divisão de opiniões, com alegações que variam desde a perda de soberania até a redução de benefícios para o país, evidenciando que as certezas ainda são poucas diante das promessas de um futuro mais próspero.
Fonte: g1.globo.com