Uma nova e alarmante trend no TikTok, intitulada “Treinando caso ela diga não”, está sob investigação da Polícia Federal (PF) e tem mobilizado diversas esferas governamentais no Brasil. Os vídeos, que fazem apologia à violência contra mulheres, surgem em um momento em que o país registra um aumento recorde nos casos de feminicídio, gerando grande preocupação e exigindo respostas rápidas das autoridades e da própria plataforma.
O que é a trend ‘Treinando caso ela diga não’?
A trend consiste em vídeos onde homens, majoritariamente jovens, simulam cenários de rejeição romântica – como um “não” a um pedido de namoro ou casamento – e reagem com atos violentos. As simulações incluem desde socos em objetos, golpes com facas, tiros e outras ações agressivas, sempre acompanhadas da frase “treinando caso ela diga não” ou variações. Uma análise do g1 revelou que esses vídeos, publicados entre 2023 e 2025, alcançam contas com até 177 mil seguidores e mais de 175 mil interações, evidenciando o vasto alcance da propagação misógina.
A gravidade da trend é amplificada pelo contexto social. Em 2025, o Brasil registrou cerca de 1.470 feminicídios, o maior número desde a criação da tipificação em 2015, com uma média de quatro mulheres mortas por dia. Casos reais de violência extrema, como o de uma jovem no Rio de Janeiro esfaqueada após rejeitar um homem, sublinham o perigo de conteúdos que normalizam e incitam a agressão contra mulheres.
Repercussão e a ação das autoridades
Diante da repercussão e da gravidade dos vídeos, a Diretoria de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal abriu um inquérito e já derrubou os perfis criminosos identificados. A ação da PF visa impedir a disseminação do conteúdo e responsabilizar criminalmente os envolvidos. Paralelamente, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou um requerimento do deputado Pedro Campos (PSB-PE) para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue as publicações.
A Advocacia-Geral da União (AGU) também se manifestou, enviando um pedido de abertura de inquérito no Dia Internacional da Mulher (8 de março). O procurador Raphael Ramos destacou que as imagens representam uma ameaça concreta aos direitos das mulheres e afetam a integridade de políticas públicas de proteção. Pedro Campos reforçou a necessidade de responsabilizar não apenas os criadores, mas também as empresas de tecnologia, cobrando delas um papel ativo na coibição desses conteúdos.
O posicionamento do TikTok e as cobranças do governo
Questionado sobre a trend, o TikTok afirmou ter removido os conteúdos misóginos da plataforma por violarem suas Diretrizes da Comunidade. No entanto, essa resposta não foi suficiente para o governo brasileiro. O Ministério da Justiça enviou um pedido formal à plataforma, concedendo um prazo de cinco dias para que ela se explique.
O Ministério exige que o TikTok não se limite à remoção de conteúdos específicos, mas que promova a remoção imediata e proativa, mesmo sem ordem judicial. Além disso, o governo solicitou uma descrição detalhada das medidas técnicas e organizacionais implementadas para combater conteúdos misóginos, incluindo sistemas automatizados de moderação e análises de trends potencialmente ilícitas. Dados sobre a monetização dos vídeos removidos e os mecanismos de recomendação que podem ter impulsionado essas publicações também foram solicitados, visando uma responsabilização mais ampla e eficaz.
Fonte: canaltech.com.br
