A indústria dos videogames, assim como muitos outros setores, vivenciou transformações profundas durante a pandemia de COVID-19. Com a quarentena, houve um ‘boom’ de engajamento com jogos, levando desenvolvedoras a escalar projetos e equipes para atender à demanda. Contudo, o fim da pandemia trouxe um cenário desafiador: equipes superdimensionadas, queda no faturamento, aumento de custos e retração de investimentos. O resultado foi uma onda de demissões, cancelamento de projetos e fechamento de estúdios.
Em meio a esse caos, um setor que nem sempre ganha os holofotes, mas está presente nos créditos da maioria dos jogos, emergiu fortalecido: o dos estúdios terceirizados. Dados do relatório ‘State of Video Gaming 2026’, do CEO da Epyllion, Matthew Ball, revelam que o investimento em desenvolvimento terceirizado atingiu 35,5%. Empresas entrevistadas indicaram terceirizar entre 60% e 95% do trabalho em áreas como animação, áudio e design de ambientes.
O que é terceirização em games?
A terceirização no universo dos games consiste em contratar equipes e profissionais externos para executar partes específicas do trabalho, ou até mesmo desenvolver um jogo em conjunto com o estúdio principal. Embora seja uma prática antiga, ela vem se expandindo para além de áreas tradicionais como localização, trilha sonora e Teste de Qualidade (QA).
Empresas terceirizadas frequentemente se especializam em nichos, reunindo talentos globais. Há aquelas focadas em ‘ports’ de jogos para diferentes plataformas, como a Panic Button (responsável por levar Forza Horizon 5 ao PlayStation 5), e outras que cuidam de otimização, recursos multiplayer, entre outros. A terceirização pode abranger desde componentes específicos de um projeto até o desenvolvimento completo, mas é crucial que o estúdio detentor da Propriedade Intelectual (IP) mantenha o padrão de qualidade e uma comunicação eficaz.
Por que os estúdios terceirizam?
Os motivos para a contratação de desenvolvedores e profissionais externos vão muito além da simples redução de custos. A terceirização é uma porta de acesso a talentos globais altamente especializados. É uma opção mais viável tanto financeiramente quanto em termos de tempo, já que encontrar um profissional ideal para um cargo fixo pode ser demorado e mais custoso do que trabalhar com pessoal temporário.
Outro fator crucial é a escalabilidade dos jogos AAA. Títulos cada vez maiores e mais detalhados exigem mão de obra extra e agilidade para cumprir os marcos de desenvolvimento, tornando os processos internos mais caros. Isso também resolve problemas de cobertura global: um estúdio europeu pode ter dificuldades em alcançar o público brasileiro, por exemplo, mas uma empresa terceirizada local pode oferecer serviços personalizados de marketing ou localização.
A terceirização também expõe as empresas a menos riscos. Muitas desenvolvedoras optam por manter a parte criativa do projeto internamente, terceirizando as etapas mais técnicas e braçais da produção, garantindo assim um controle criativo sobre a essência do jogo.
Além disso, profissionais e desenvolvedoras terceirizadas desempenham um papel vital no apoio a estúdios independentes. Essa parceria permite que desenvolvedores ‘indie’ concretizem ideias com escopos ambiciosos, mesmo com equipes pequenas. Um exemplo notável é Hollow Knight: Silksong, onde 95% dos envolvidos no projeto não fazem parte do núcleo da Team Cherry, que consiste em apenas três pessoas, demonstrando o poder da colaboração externa.
O que é preciso para dar certo?
Para que a terceirização de um jogo seja bem-sucedida, a comunicação entre contratante e contratado deve ser impecável. O estúdio dono da IP precisa definir claramente as responsabilidades de cada equipe desde o início. Os marcos de desenvolvimento devem estar alinhados e representar valor tangível, especialmente porque muitas parceiras terceirizadas cobram por marcos alcançados. Os critérios de satisfação e qualidade aceitáveis precisam ser extremamente claros.
É fundamental integrar as equipes externas à forma de trabalho do estúdio, incluindo ferramentas, cultura e processo de ‘onboarding’. Isso garante que o pessoal terceirizado não apenas cumpra os prazos, mas também entregue um trabalho de alta qualidade. Além disso, o estúdio proprietário deve designar um responsável para supervisionar e acompanhar o time terceirizado, avaliando entregas e demandas, o que garante uniformidade e coesão.
A gestão de recursos e da propriedade intelectual também é vital. É preciso definir quais tecnologias e ‘assets’ devem ser devolvidos à desenvolvedora interna e estipular multas claras para vazamentos ou quebras de Acordos de Confidencialidade (NDAs).
A terceirização está longe de ser um mar de rosas
Apesar de viabilizar jogos de grande escopo, a terceirização também apresenta sérios problemas. O mais conhecido é a busca por corte de custos, que pode levar à precarização dos salários de trabalhadores internos e ao aumento da carga de trabalho. Há relatos preocupantes de grandes produtoras que se utilizam de mão de obra barata em países em desenvolvimento, com desenvolvedores trabalhando jornadas semanais de 70 horas, sem pagamento de horas extras ou folgas compensatórias.
Além dos problemas com profissionais, a terceirização pode trazer riscos ao desenvolvimento, como a perda de controle criativo – um problema grave para grandes franquias com fãs exigentes. A falta de comunicação e a má gestão de cronogramas são outros problemas frequentes, que podem resultar em atrasos significativos e fugir totalmente do controle da empresa contratante.
A terceirização no desenvolvimento de jogos é uma realidade consolidada e sua expansão é inevitável. Com o crescimento do escopo técnico e criativo dos jogos, setores que tradicionalmente já utilizavam a terceirização, como localização (exemplo da The Pokémon Company), QA e trilha sonora, verão a chegada de novas áreas, como animação e arte, a esse modelo de produção.
Fonte: canaltech.com.br
