Por anos, a Microsoft Store tentou conquistar o público gamer de PC, mas a preferência esmagadora pelo Steam é inegável. Qualquer jogador de computador sabe que, na hora de comprar um game, a escolha quase sempre recai sobre a plataforma da Valve. A própria Microsoft reconhece essa realidade, disponibilizando seus principais lançamentos também no Steam. Mas, afinal, por que sua própria loja se tornou uma das poucas que “ninguém quer usar”?
A resposta reside em uma série de decisões e problemas de usabilidade que marcaram a plataforma desde suas origens, empurrando-a para dentro do aplicativo Xbox em uma tentativa de revitalização. O Canaltech detalha os pontos cruciais que selaram o destino da Microsoft Store no universo dos jogos para PC.
O “Pecado Original”: UWP e a Experiência Quebrada
A ideia de popularizar a Microsoft Store como um hub para jogos de PC surgiu durante a transição do Windows 8 para o Windows 10. Naquela época, a companhia tentou forçar o formato Universal Windows Platform (UWP) em detrimento dos tradicionais arquivos .exe (Win32). A promessa era grandiosa: desenvolvedores poderiam escrever um código que rodaria em PCs, Xbox, tablets e até dispositivos como o HoloLens.
Contudo, essa “utopia” veio com sacrifícios significativos. O UWP impedia que softwares essenciais para gamers, como MSI Afterburner, OBS, Fraps e Discord, apresentassem overlays ou interagissem com os jogos, bloqueando comandos de códigos externos. Além disso, o modo de “Janela sem bordas”, imposto pelo UWP para jogos em tela cheia, causava sérios problemas de input lag e latência – um pecado capital para jogadores competitivos. Embora a Microsoft tenha corrigido esses problemas posteriormente, a máxima de que “a primeira impressão é a que fica” se provou verdadeira, criando um distanciamento irreparável com a comunidade.
A Guerra Contra os Arquivos: O Bloqueio da Pasta WindowsApps
Mais impactante do que os problemas de UWP foi a infame pasta WindowsApps. Protegida e criptografada, seu acesso era restrito apenas a permissões de sistema, tornando-a uma “maldição” para muitos. O maior problema? A impossibilidade de usar mods.
Para uma parcela massiva de jogadores de PC, a liberdade de modificar seus jogos é um pilar fundamental da experiência. Imagine não poder aplicar melhorias gráficas em Starfield, inserir Shrek em Elden Ring, ou levar Kratos para enfrentar Choo-Choo Charles? A inacessibilidade da pasta impedia a colagem de arquivos, mods de tradução, texturas ou correções da comunidade – ironicamente, recursos muito comuns em jogos da Bethesda e The Coalition, estúdios da própria Microsoft.
Em contraste, o Steam oferece liberdade total: um simples clique direito, “abrir local do arquivo”, e o usuário tem controle irrestrito, podendo até desestruturar o jogo inteiro se desejar. A Microsoft, ao negar essa liberdade e essencialmente dizer que o usuário não era dono dos seus próprios arquivos no próprio PC, cometeu um erro que gerou profunda desilusão.
Pesadelo na Instalação e a Confusão de UX
Os problemas não paravam por aí. A instalação de jogos da Microsoft Store era um capítulo à parte. Falhas recorrentes de download eram agravadas por uma armadilha: o espaço no disco continuava ocupado por “arquivos fantasmas”. Limpar esses arquivos corrompidos era uma verdadeira batalha, muitas vezes exigindo uma formatação completa do computador – um absurdo. O Windows, frequentemente, exibia a mensagem “você não tem permissão para deletar isso”, impedindo funções básicas de gerenciamento.
Adicionalmente, a experiência do usuário (UX) era confusa. A compra e a licença eram gerenciadas pela Microsoft Store, mas o download e a execução exigiam que o jogador migrasse para o aplicativo Xbox. Ambos os aplicativos eram pesados e lentos, enquanto o Steam centraliza todas as funções em uma única plataforma. A interface da loja era lenta, e a busca, imprecisa; não era raro pesquisar Halo Infinite e se deparar com Candy Crush ou outros títulos sem nenhuma relação.
Ao longo do Windows 10 e do atual Windows 11, a Microsoft Store passou por melhorias significativas. Ela agora aceita jogos em Win32 (.exe) e permite que o usuário selecione a pasta de instalação. No entanto, essas mudanças vieram tarde demais. A confiança da comunidade já estava quebrada, e a percepção de uma plataforma restritiva e problemática se arraigou. Embora a loja seja mais funcional hoje, muitos jogadores sequer cogitam comprar algo ali.
A tentativa da Microsoft de criar um “jardim murado”, similar ao modelo da Apple, foi rejeitada pelo público gamer de PC, que sempre valorizou a liberdade e o controle sobre seus próprios equipamentos e jogos. O Steam, ao contrário, prosperou exatamente por oferecer essa liberdade tão estimada, consolidando sua liderança inquestionável no mercado de jogos digitais para computador.
Fonte: canaltech.com.br
