Guerra Invisível: Como Hackers e IA Atuam no Conflito Cibernético entre Irã e EUA e Remodelam as Táticas Digitais no Oriente Médio

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Em meio à tensão crescente no Golfo Pérsico, onde drones e forças militares se movimentam, uma guerra paralela e silenciosa ganha contornos cada vez mais nítidos: a guerra cibernética. Ataques a sites de notícias, a veiculação de mensagens políticas em aplicativos e a interrupção da conectividade à internet no Irã, após ações conjuntas de EUA e Israel, não são coincidência. Segundo Alcides Peron, doutor em Política Científica e Tecnológica e professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, esses eventos demonstram a consolidação de uma lógica de conflito que, com os avanços tecnológicos, atingiu escala e sofisticação sem precedentes.

“Toda guerra possui uma frente ligada ao controle da informação. Trata-se da capacidade de adquirir dados, negar o acesso do adversário a essas informações e, em muitos casos, destruir suas estruturas de comando e controle”, explica Peron, ressaltando a natureza fundamental da informação nos confrontos contemporâneos.

A Infraestrutura como Novo Campo de Batalha

Longe da imagem estereotipada do hacker solitário, o elemento central da guerra digital moderna é a infraestrutura que sustenta as operações militares e civis: satélites, drones, antenas, cabos submarinos – sistemas interconectados e interdependentes. Para Peron, quanto mais centralizado esse sistema de comando e controle, maior sua vulnerabilidade. Um ataque cibernético bem orquestrado pode desmantelar a capacidade operacional de um exército inteiro sem a necessidade de um único disparo físico.

Hacktivistas: Independentes ou Instrumentos Estatais?

Nos últimos anos, um novo tipo de ator emergiu nos conflitos geopolíticos: grupos de hackers que se autodenominam ativistas independentes, motivados por ideologias, mas que, na prática, frequentemente orbitam os interesses de Estados. André Carneiro, diretor-geral da Sophos no Brasil, aponta a diferença técnica e estratégica: hacktivistas tendem a usar métodos mais diretos e visíveis, como ataques de negação de serviço (DDoS), invasões de sites e vazamentos públicos. Em contraste, operações estatais empregam malware customizado, vulnerabilidades inéditas e técnicas avançadas de longo prazo, com recursos e objetivos muito mais estratégicos.

Peron, no entanto, mantém ceticismo quanto à autonomia total desses grupos. “Existe a ilusão de que esses grupos são totalmente independentes. Mas ataques digitais totalmente desalinhados de uma estratégia central podem, inclusive, prejudicar o próprio Estado que diz apoiar”, afirma, concluindo que, apesar da imagem de autonomia, operam como instrumentos acessórios em estratégias geopolíticas maiores.

Desinformação e Inteligência Artificial: As Armas Psicológicas da Era Digital

A guerra cibernética vai além de derrubar servidores ou roubar dados. Peron destaca a “guerra informacional”, que engloba operações psicológicas visando confundir, desmoralizar e manipular soldados e a opinião pública. Essa dimensão inclui a disseminação de desinformação, a produção de notícias falsas e até mesmo deepfakes gerados por inteligência artificial.

O uso de IA para automatizar ataques já é uma realidade. Carneiro observa que campanhas recentes se tornaram significativamente mais rápidas. A Sophos detectou ataques conduzidos de forma quase autônoma, com mínima intervenção humana, evidenciando como a IA tem sido empregada por grupos ligados a governos para automatizar etapas inteiras de operações de invasão.

A Busca por Regras no Ciberespaço: Um Desafio Global

Ao contrário dos conflitos armados convencionais, o ciberespaço ainda carece de um equivalente às Convenções de Genebra. Não existe um tratado internacional vinculante que regulamente especificamente o uso de armas digitais em conflitos. Iniciativas como a Convenção de Budapeste sobre crimes cibernéticos e o Manual de Tallinn, da OTAN, buscam interpretar a guerra digital sob a ótica do direito internacional, mas são incipientes.

Contudo, Peron aponta para um consenso emergente. “Já há um entendimento crescente de que ataques cibernéticos podem ser considerados uso da força entre Estados, e isso aciona toda a responsabilização prevista na Carta das Nações Unidas”, explica. Na prática, isso implica que ataques digitais que comprometam hospitais, redes de transporte ou outras infraestruturas críticas podem ser enquadrados como violações do direito humanitário internacional, marcando um passo inicial rumo à responsabilização no campo de batalha digital.

Fonte: canaltech.com.br

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