Dieta Cetogênica e Saúde Mental: O Que Diz a Ciência?
As recentes declarações de Robert F. Kennedy Jr., secretário de saúde dos Estados Unidos, sobre a suposta capacidade da dieta cetogênica em curar a esquizofrenia e o transtorno bipolar têm gerado amplo debate. Embora a dieta tenha demonstrado eficácia no controle da epilepsia, a comunidade científica é cautelosa quanto à sua aplicação em transtornos psiquiátricos, alertando para a falta de evidências robustas e os potenciais riscos envolvidos.
O Que é a Dieta Cetogênica e Como Ela Age no Cérebro?
A dieta cetogênica é caracterizada por uma alta ingestão de gorduras (cerca de 70% das calorias), moderada de proteínas (20%) e muito baixa em carboidratos. O objetivo é induzir o estado de cetose, onde o corpo passa a usar corpos cetônicos derivados da gordura como principal fonte de energia, em vez da glicose. Esse processo pode influenciar neurotransmissores cerebrais. Uma das teorias é que os corpos cetônicos entram diretamente nas mitocôndrias, a usina de energia das células, de forma mais estável, reduzindo a produção de radicais livres. Além disso, a dieta tende a aumentar o GABA, um neurotransmissor inibitório, e diminuir o glutamato, um neurotransmissor excitatório, além de regular o transporte de eletrólitos, o que pode levar a uma menor atividade neuronal anormal.
A Dieta Cetogênica e a Epilepsia: Uma Relação Comprovada
A ligação entre a dieta cetogênica e a epilepsia é histórica. A doença se manifesta por meio de crises elétricas agudas causadas por descargas neuronais anormais, muitas vezes associadas a um desequilíbrio entre glutamato (em excesso) e GABA (em déficit). Ao aumentar o GABA e controlar o glutamato, além de promover outras regulações metabólicas, a dieta cetogênica consegue reduzir a frequência e a gravidade das crises epilépticas. Desenvolvida no início do século XX para mimetizar os efeitos do jejum, que também auxiliava no controle da epilepsia, a dieta se consolidou como um tratamento eficaz, especialmente em casos de resistência a medicamentos.
Esquizofrenia e Epilepsia: Mecanismos Diferentes, Evidências Limitadas
A esquizofrenia, ao contrário da epilepsia, é caracterizada por alterações crônicas nos circuitos cerebrais que afetam pensamento, percepção, emoções e comportamento, podendo levar a alucinações e delírios. Os neurotransmissores dopamina e glutamato são centrais nesse transtorno, embora GABA e serotonina também estejam envolvidos. Embora a dieta cetogênica possa ter um efeito gabaérgico benéfico e fornecer energia alternativa ao cérebro, cuja dependência de glicose pode estar prejudicada na esquizofrenia, as evidências científicas que sustentam sua cura ou remissão duradoura são ainda escassas. Estudos recentes exploram o potencial da dieta em condições como Alzheimer, autismo, depressão e ansiedade, mas os resultados são preliminares.
Riscos e a Necessidade de Acompanhamento Profissional
A dieta cetogênica é altamente restritiva e pode apresentar desafios significativos, sendo geralmente prescrita por períodos limitados (até dois anos). Entre os riscos associados estão desconfortos gastrointestinais, acúmulo de gordura no fígado (esteatose hepática) e um possível aumento transitório do colesterol LDL. Por essas razões, é fundamental que a adoção da dieta cetogênica seja sempre acompanhada de perto por uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos e nutricionistas, para garantir a segurança e o bem-estar do paciente.
O Caso de Christopher Palmer e a Necessidade de Mais Pesquisas
As afirmações de Kennedy Jr. fazem referência a estudos do psiquiatra Christopher Palmer, que relatou casos de pacientes com esquizofrenia em remissão após a adoção da dieta cetogênica. No entanto, especialistas ressaltam que esses relatos, embora promissores, não constituem prova definitiva de cura ou remissão duradoura. Há críticas sobre potenciais conflitos de interesse e questões metodológicas em alguns desses trabalhos. Portanto, a comunidade científica reitera que, embora a dieta cetogênica possa oferecer benefícios em determinados contextos, ainda são necessárias mais pesquisas robustas para confirmar sua eficácia e segurança no tratamento de transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia.
Fonte: saude.abril.com.br
