O drama silencioso a bordo
Um número alarmante de petroleiros e outras embarcações comerciais está sendo abandonado por seus proprietários ao redor do mundo, expondo tripulações a condições desumanas. Relatos como o de Ivan (nome fictício), um oficial de convés russo preso em um petroleiro fora das águas territoriais chinesas, pintam um quadro sombrio: falta de alimentos básicos, como carne e grãos, salários não pagos por meses e um clima de desespero e raiva a bordo.
O navio em que Ivan se encontra, transportando cerca de 750 mil barris de petróleo bruto russo, avaliado em aproximadamente US$ 50 milhões, está à deriva desde dezembro. A embarcação foi declarada abandonada pela Federação Internacional dos Trabalhadores dos Transportes (ITF) após a tripulação relatar o atraso no pagamento de salários. Apesar de alguns tripulantes terem sido repatriados, a maioria, incluindo Ivan, permanece a bordo, dependendo de doações de suprimentos para sobreviver enquanto a situação diplomática e comercial se arrasta.
Um salto assustador no abandono marítimo
Os números revelam a gravidade do problema: em 2016, apenas 20 navios foram abandonados globalmente. Em 2025, esse número explodiu para 410, afetando 6.223 marinheiros mercantes. Esse aumento de quase um terço em relação ao ano anterior é atribuído, em grande parte, à instabilidade geopolítica decorrente de conflitos globais e das interrupções causadas pela pandemia de Covid-19. Essas circunstâncias provocaram flutuações nos custos de frete e dificuldades operacionais para muitas empresas.
‘Frotas Fantasmas’ e Bandeiras de Conveniência: O Risco Oculto
A ITF aponta a crescente presença das chamadas “frotas fantasmas” como um fator crucial para o aumento do abandono. Essas embarcações, frequentemente antigas, de propriedade obscura e em condições precárias de navegação, operam sob bandeiras de conveniência (FOCs) de países com fiscalização regulatória limitada. O objetivo é, muitas vezes, burlar sanções internacionais, permitindo que países como Rússia, Irã e Venezuela exportem petróleo bruto sem o escrutínio devido. O caso russo, com a busca por compradores na China e Índia após a invasão da Ucrânia, exemplifica essa estratégia.
As bandeiras de conveniência, usadas há décadas para contornar regulamentações, têm em Panamá, Libéria e Ilhas Marshall seus principais expoentes. No entanto, a Gâmbia emergiu como um novo player, registrando um aumento expressivo de petroleiros em 2025. Em 2025, 82% das embarcações abandonadas (337 no total) navegavam sob bandeiras de conveniência, um indicativo claro do risco ampliado para navios e tripulações dessas “frotas fantasmas”.
O Impacto Humano e a Luta por Direitos
A definição de abandono marítimo, segundo a Organização Marítima Internacional (IMO), ocorre quando o armador deixa de arcar com os custos de repatriação, suporte necessário ou rompe unilateralmente o vínculo, incluindo a falta de pagamento de salários por dois meses. Em 2025, os salários atrasados de tripulações abandonadas somaram US$ 25,8 milhões, dos quais a ITF conseguiu recuperar US$ 16,5 milhões.
A Índia, com 1.125 marinheiros afetados em 2025, lidera a lista de nacionalidades mais prejudicadas, seguida por Filipinas e Síria. Em resposta, o governo indiano colocou 86 embarcações estrangeiras na “lista negra” por abandono e violações de direitos. Sindicatos como o Nautilus International responsabilizam os Estados que oferecem bandeiras de conveniência por uma “completa abdicação de responsabilidade”, clamando por um “vínculo genuíno” entre proprietários e bandeiras de registro.
O caso do navio de Ivan, que navegava sob uma bandeira gambiana falsa, ilustra a complexidade da situação. A esperança de solução reside na transferência do petróleo para outra embarcação em alto-mar. Para marinheiros como Ivan, a lição é clara: maior cautela na escolha de embarcações, atenção às condições, pagamentos e suprimentos, além de pesquisa sobre o histórico dos navios. A cooperação internacional é essencial para proteger os trabalhadores do mar, peças-chave na complexa cadeia de suprimentos global, especialmente no transporte de petróleo russo.
Fonte: g1.globo.com
