A Sensação de Retornar à Zona de Desastre
Quinze anos após o devastador terremoto e tsunami que atingiram o nordeste do Japão em 2011, o país ainda lida com as cicatrizes deixadas pela tragédia. Um repórter da BBC retorna à região para observar os sinais de reconstrução e revisitar locais onde a história parece ter sido suspensa. Em Fukushima, a dualidade do desastre se manifesta de forma marcante: enquanto o tsunami destruiu cidades em minutos, o acidente nuclear criou um tipo diferente de vazio – lugares intactos, mas desprovidos de vida.
A Cidade Sem Pessoas: O Legado da Radiação
Ao se aproximar da usina nuclear de Fukushima, o cenário muda drasticamente. Estradas quase desertas dão lugar a paisagens onde a natureza retomou seu curso sem controle. Casas permanecem como foram deixadas, com bicicletas enferrujadas em quintais e carros cobertos de poeira em garagens abertas. Centros de cuidado para idosos, com cadeiras e equipamentos abandonados, testemunham a evacuação apressada. Diferente de cidades destruídas por guerras ou terremotos, onde as marcas da violência são evidentes, aqui a ausência de destruição física torna o abandono ainda mais inquietante. O desastre não demoliu as cidades; ele expulsou seus habitantes.
A Escola que Escapou do Mar: Um Memorial de Resiliência
A poucos quilômetros dali, a Escola Primária Ukedo em Namie conta outra história. Localizada a 300 metros do oceano, a escola se tornou um memorial silencioso da força do tsunami. Em 11 de março de 2011, alunos e professores vivenciaram um tremor violento e, logo depois, o alerta de tsunami. A decisão rápida de evacuar para o Monte Ohira, sem tempo para pegar pertences, salvou as 82 crianças presentes. O mar avançou sobre a cidade, atingindo o segundo andar da escola, mas todos estavam vivos. Hoje, o prédio preserva as marcas da água e da força da natureza, com o ginásio rasgado e corredores marcados pela inundação. As salas de aula foram transformadas em espaços de memória, com cadeiras alinhadas e um quadro negro intocado, enquanto o mar, agora calmo do lado de fora, contrasta com a história de destruição contada pelas paredes e objetos dentro da escola.
Duas Paisagens, Uma Tragédia
Fukushima apresenta duas faces distintas do desastre. Uma é a da destruição visível, marcada pela água e pela força do mar. A outra é a do abandono invisível, onde a radiação forçou a saída de pessoas de cidades que, em sua estrutura, permaneceram intactas. Essa dualidade levanta a questão persistente sobre como reconstruir uma comunidade onde o tempo parece ter parado. Enquanto o tsunami levou casas, a radiação levou a vida, deixando para trás um legado complexo de perda e a busca por um futuro.
Fonte: g1.globo.com
