A escalada dos preços do petróleo, impulsionada por um conflito em curso entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, ameaça provocar um efeito cascata que pode encarecer significativamente o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial (IA) globalmente. O barril do petróleo americano, que há poucas semanas custava US$ 70, chegou a ultrapassar US$ 119 e hoje opera na faixa dos US$ 85, um patamar ainda bem acima da média histórica recente. O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, é um dos principais gatilhos para essa valorização.
A commodity move toda a cadeia produtiva global, desde o transporte marítimo até a fabricação de semicondutores e a geração de energia. O mercado de IA, intrinsecamente ligado a essa infraestrutura, está na linha de frente dos impactos. Para entender as implicações, o Canaltech conversou com Alexandre Caramelo, coordenador acadêmico da FGV, e Kenneth Corrêa, professor dos programas C-Level da mesma instituição.
O Efeito Cascata do Petróleo na IA
O treinamento e a operação de grandes modelos de IA demandam uma quantidade colossal de eletricidade. Segundo Alexandre Caramelo, o uso diário de ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude pode representar até 90% do custo energético total de um modelo ao longo de sua vida útil. Essa energia é consumida principalmente pelos data centers, que são o coração da infraestrutura de IA.
A questão energética, contudo, não é a única. A complexa cadeia de produção de chips, essenciais para a IA, também é afetada. Um chip de GPU da Nvidia, por exemplo, é desenhado nos EUA, fabricado em Taiwan e encapsulado na Malásia. Cada etapa dessa jornada logística consome combustível, elevando os custos de produção.
Kenneth Corrêa aponta para um gargalo menos óbvio, mas igualmente crítico: o hélio. “A cadeia de petróleo e gás natural, especialmente a extração de GNL no Catar, é a principal fonte global desse gás, que é insubstituível na fabricação de semicondutores avançados”, alerta. Sem ele, a linha de produção de chips simplesmente desacelera, impactando diretamente a oferta de hardware para IA.
Data Centers: Novos Alvos em Tempos de Conflito
Pela primeira vez na história, os data centers se tornaram alvos de bombardeios em um conflito. Na última quarta-feira (4), a Guarda Revolucionária do Irã confirmou ter alvejado a infraestrutura da AWS. Embora os danos tenham sido localizados, causando instabilidade em países como Emirados Árabes Unidos e Bahrein, o incidente revela uma nova dimensão estratégica.
Com o avanço do uso de IA em operações militares, os data centers, mesmo sendo de propriedade privada, tornam-se alvos importantes para enfraquecer oponentes, já que alimentam a tecnologia utilizada em ataques e na inteligência de guerra.
Chatbots Mais Caros? O Futuro das Assinaturas
Apesar da alta do petróleo, serviços como ChatGPT e Gemini não devem ficar mais caros imediatamente. Grandes empresas de tecnologia operam com contratos de energia de longo prazo, os chamados PPAs (Power Purchase Agreements), que as protegem de oscilações de curto prazo. Contudo, essa proteção tem prazo de validade.
“Isso não dura para sempre”, pondera Caramelo. “Esses contratos vencem, têm que ser renegociados, e nesse novo patamar de petróleo, nem sempre vai ser tão vantajoso.” Corrêa estima que, se o barril ultrapassar novamente os US$ 100 e permanecer acima dessa faixa por mais de dois trimestres, ajustes graduais serão inevitáveis.
Antes de um aumento direto nos preços das assinaturas, o sinal mais provável é o encolhimento das versões gratuitas dos serviços: janelas de contexto menores, respostas mais lentas e limites de tokens reduzidos. “As versões pagas, como o Pro e o Plus, tendem a ter preços reajustados”, completa Caramelo. Serviços de streaming e cloud gaming devem seguir o mesmo caminho, pois competem pela mesma infraestrutura de servidores e refrigeração.
Brasil: Um Polo Estratégico para a IA Sustentável?
Em meio a esse cenário, o Brasil emerge com uma vantagem comparativa. Sua matriz energética é majoritariamente renovável — hidrelétrica, eólica e solar — o que a torna menos sensível às flutuações do petróleo. “O Brasil tem um potencial muito grande para data centers. A gente vê isso com projetos da ByteDance (TikTok) no Ceará, da Microsoft, da AI City. São investimentos bilionários que fazem sentido exatamente por causa da nossa matriz”, afirma Caramelo.
Kenneth Corrêa confirma que as Big Techs já estão buscando justamente esse tipo de solução, instalando data centers próximos a fontes de energia limpa para fugir da volatilidade dos combustíveis fósseis. O principal obstáculo, no momento, é a dependência do Brasil de hardware estrangeiro para a construção e manutenção desses centros.
A crise atual funciona como um catalisador, expondo vulnerabilidades antes ignoradas. “Até então, ninguém se preocupava muito com o custo de treinamento e de inferência. Agora isso fica mais evidente”, observa Caramelo. A tendência, segundo ele, é que a IA do futuro seja mais enxuta, mais cara e mais estratégica, com as Big Techs investindo em chips próprios otimizados para eficiência energética, como os TPUs do Google e os projetos da Amazon, buscando um caminho de maior sustentabilidade e resiliência frente a choques globais.
Fonte: canaltech.com.br
